Na última terça-feira, os representantes das 36 federações que formam a Confederação de Estudantes do Chile (Confech), encabeçados por Camila Vallejo, da Universidade do Chile, e Giorgio Jackson, da Universidade Católica, decidiram retomar o diálogo com o governo de direita de Sebastián Piñera, representado por seu ministro da Educação, Felipe Bulnes.
Isso, no entanto, não significa o fim das mobilizações, pois o pleno universitário deixou a critério de cada federação encerrar ou não o primeiro semestre (para não perder conclusões de curso e créditos), mas chamou a que todos não voltem às aulas no segundo semestre se não houver avanços na mesa de negociações com o governo.
“O governo, através do ministro, assinala que quer um diálogo sem condições, no entanto, a condição é encerrar o semestre e iniciar o segundo”, manifestou Camila Vallejo. “Ele nos diz que quer avançar com o movimento e que apoiam nossas demandas, no entanto, assinala que nós não podemos incidir na lei do orçamento (da nação, em 2012)”, acrescentou a dirigente universitária. Neste cenário, Camila Vallejo ratificou o chamado para uma nova marcha convocada para esta quinta em Santiago e nas principais cidades do país
Na quinta passada, mais de 200 mil pessoas saíram às ruas no Chile mais uma vez para protestar por melhorias na educação, jogando por terra a estratégia do governo de apostar no desgaste do movimento estudantil que demonstrou que as reivindicações dos jovens seguem fortes.
36º Marcha Estudantil mobiliza milhares de jovens
Neste caloroso cenário foi realizada nesta quinta (30/09) a 36ª marcha dos estudantes desde que iniciaram as paralisações e ocupações de escolas há quatro meses, levando às ruas mais de 150 mil jovens. A mobilização também foi importante em regiões onde centenas de milhares de jovens das cidades mais importantes voltaram a reclamar um direito essencial das pessoas, a saber, o direito a uma educação de qualidade.
A marcha começou cedo saindo da frente da Universidade de Santiago, preparando a reunião da qual participaria, horas mais tarde, a Confech, representada por Camila Vallejo e Giorgio Jackson.
A mesa de negociação foi aceita pelos líderes estudantis sob diversas condições como a participação ativa no desenvolvimento de leis educativas, tornar públicas as atas das reuniões com o governo e conhecer o orçamento que o governo de direita de Sebastian Piñera dedicará a Educação em 2012. Tais requisitos demonstram a maturidade política do movimento que não se conforma com reformas superficiais e defende mudanças estruturais em um modelo econômico que faz água em diversos lugares do mundo. O discurso na manhã de quinta-feira era claro: “Nós, jovens, não confiamos no governo”.
O grito tradicional de “e vai a cair a educação de Pinochet” foi escutado com força novamente, tudo em calma e harmonia. Mas, de repente, a calma virou caos. A marcha teve que ser interrompida em razão de fortes enfrentamentos de jovens com o rosto coberto e as forças policiais. Ao final da marcha, houve mais de 100 pessoas detidas.
As autoridades disseram que as escaramuças foram provocadas por manifestantes que não respeitaram o traçado estabelecido pela prefeitura metropolitana, enquanto os jovens denunciaram provocações dos carabineiros. Em resumo, os carros com jatos d’água e as bombas de gás lacrimogêneo voltaram com força ao teatro de operações.
“Não houve vontade, nós estamos cedendo o tempo todo, então somos capazes de dialogar, somos capazes de ceder, mas é o cúmulo sermos reprimidos desta forma”, disse indignada Camila Vallejo.
Do outro lado, a prefeita metropolitana, Cecilia Pérez, disse que reavaliará a relação com os dirigentes estudantes após os incidentes. “Quando faltam com a palavra, a confiança se quebra”, afirmou.
Primeira reunião com o governo após a retomada dos diálogos
Após o meio-dia, os olhares se transportaram para o Ministério da Educação, aonde os líderes estudantis chegaram à tarde para dialogar com o governo em uma primeira aproximação após várias semanas de diálogo congelado.
Os líderes estudantis chegaram ao Ministério da Educação durante à tarde, para a reunião que, terminada às 19h50min, foi considerada “tensa e difícil” pelo presidente do Colégio de Professores, Jaime Gajardo, primeiro participante da reunião a se pronunciar. Essa avaliação foi referendada por Vallejo e Jackson, que informaram que na próxima reunião se discutirá o tema da gratuidade na educação.
“Está claro que haverá uma segunda instância onde se discutirá o tema da gratuidade. A Confech vai apresentar o nosso projeto sobre isso, o qual estamos preparando há bastante tempo”, observou Vallejo.
Os estudantes reclamaram que não havia câmeras registrando a reunião nem um funcionário tomando notas para relatar as conversas, conforme tinha sido prometido pelo Ministério da Educação. Os estudantes secundaristas, assim como os universitários, condicionaram a volta às aulas à obtenção de avanços reais.
Finalmente, o ministro Bulnes disse que “todos os temas são importantes, mas não podemos discutir tudo ao mesmo tempo”, insistindo em que os jovens deveriam voltar às aulas.
Anúncio da Lei do Orçamento em rede nacional
Paralelamente a reunião, Piñera anunciava horas mais tarde, que apresentaria em cadeia nacional de rádio e televisão a Lei do Orçamento, incluindo os recursos destinados à Educação.
A Educação teria, pela primeira vez, a maior parcela do gasto público chileno, superando inclusive os ministérios do Trabalho e da Saúde. Isso foi confirmado mais tarde. A Educação terá US$ 11,65 bilhões (+7,2%) para gastar em 2012. No entanto, isso não assegura a gratuidade, a qualidade e a diminuição dos juros cobrados pelas universidades, nem a concessão de bolsas para os setores mais pobres da população.
O anúncio apresentado por Piñera como o mais importante da história da educação no Chile não surpreendeu os economistas que prometem nos próximos dias rebater esses dados considerados exagerados.
Pesquisa de popularidade
Neste cenário, na terça-feira, também se conheceu a última pesquisa do Centro de Estudos da Realidade Contemporânea (CERC) que revelou que a aprovação da gestão do presidente Sebastian Piñera caiu para 22% (13 pontos a menos do que o índice registrado em maio), enquanto que o nível de desaprovação subiu de 53% para 66% no mesmo período em que vem ocorrendo o conflito estudantil.
A pesquisa revelou também que em todos os estratos sociais a educação é o principal problema do país. Cerca de 89% apoiam as demandas estudantis e 71% estão a favor de efetuar um plebiscito para solucionar este problema. Além disso, a pesquisa mostrou que, para 37% dos entrevistados, o governo não está interessado em resolver o problema e que só está preocupado em “ganhar a batalha” frente aos estudantes.
Fonte: Carta Maior