Há artistas que levam gerações para serem compreendidos. É o caso de Mozart, Van Gogh, Castro Alves e tantos outros que foram embora sem ter o reconhecimento da grandeza de suas obras. Há outros casos raros em que a importância ainda é sentida em vida e, quando se vão, causam um vazio coletivo e a comoção é geral. Apesar de ter morrido jovem, aos 30 anos, Chico Science foi um deles. Deixou apenas dois álbuns ao lado da Nação Zumbi  – Da Lama ao Caos e Afrociberdelia – o suficiente, no entanto, para modificar a cultura pop no Brasil.

Hoje (2 de fevereiro) se completa 15 anos sem Chico Science. Os caranguejos filhotes do manguebit continuam, no entanto, firmes e fortes andando soltos por aí. Bandas como Mombojó, China e  Otto mantém viva a cena musical de Recife agitada vinte anos após a publicação do manifesto “Caranguejos com Cérebro“, escrito pelo jornalista Fred Zero Quatro, que tocou com Science no Nação e mantém a banda Mundo Livre S/A. Tropicalista dos anos 90, é possível enxergar de longe o impacto que Chico Science trouxe para o Brasil.

 Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar

Há exatos 15 anos, no dia 2 de fevereiro de 1997, calava-se uma das vozes mais revolucionárias da música brasileira. Enquanto dirigia de Olinda para Recife, Chico Science perdeu o controle do Fiat Uno, chocou-se contra um poste e faceleu, em um piscar de olhos, como em um passo, com apenas 30 anos de idade.

Os pouco mais de sete anos em que esteve na ativa foram suficientes para que causasse uma reviravolta na música brasileira e recolocasse Pernambuco no mapa cultural do país. O início da virada começou quando, junto com Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, lançou o manifesto “Caranguejos com Cérebro”. O texto foi o pontapé inicial do Movimento Manguebit.

Chico antropofagizou a música de sua época e uniu a tradição cultural a suas necessidades de expressão. Questionava e propunha mudanças através de uma linguagem crítica e áspera. Talvez, se estivesse vivo, as coisas estariam mais fora do espaço ainda e a cerveja antes do almoço seria decreto nacional.

Enquanto o mundo explode

Um grupo de jovens, influenciados pela efervescência do fim da ditadura e em contato com influências musicais, produziu um programa na Rádio Universitária de Recife. A iniciativa deu certo e mostrou que havia espaço para criar e divulgar música fora dos parâmetros estabelecidos pelas multinacionais da indústria fonográfica, que cresciam com a abertura econômica neoliberal da década de 90.

 Nesse contexto, inconformados com a realidade social e urbana da capital de Pernambuco, Chico Science e Fred Zero Quatro ajudaram a escrever o manifesto do Movimento Manguebit, no qual apresentam uma alternativa para o marasmo cultural: “livrar-se dos grilhões do tradicionalismo abandonando a energia negativa do melaço de cana e energizando o ambiente fértil da lama”. O mangue era um nome óbvio para o movimento cultural de Recife, já que a cidade foi construída sobre manguezais onde habita a população pobre das favelas da cidade.

O Manguebit surgiu como um ritmo que mistura hip-hop com maracatu, mas do funk e do hip-hop, assim como do movimento punk, veio também outra característica do mangue: o senso coletivo. Se hoje a receita é considerada clássica, na época, com Da Lama ao Caos, era visto como algo extremamente inovador.

Fred Zero Quatro revê “manifesto do mangue”

Em matéria publicada nesta quinta-feira pelo portal UOL, Fred Zero Quatro revê “Manifesto do Mangue” 15 anos após a morte de Chico Science e adapta a leitura para os dias atuais.

“Mas o universo mudou. Se antes os mangueboys se inspiravam na antipsiquiatria e na teoria do caos, hoje alguns deles se interessam pelo conceito de capitalismo linguístico; descobertas recentes no campo da neuroplasticidade; experimentos obscuros da Googleplex; estudos avançados sobre sinapses e redes neurais; a falácia do conceito de “cérebro out-board” e a relação entre o uso contínuo de multitarefas com distúrbios do hipocampo cerebral. Não por acaso, alguns de seus novos gurus são o escritor Nicholas Carr e os neurocientistas Jordan Grafman e Michael Merzenich, que após anos de experimentos vêm alertando que quando realizamos multitarefas online, estamos “treinando nosso cérebro para prestar atenção ao lixo”.

Para ler a matéria na íntegra, clique aqui.

O mundo é uma cabeça

“O mundo é uma cabeça” é um registro do movimento musical Manguebit, com imagens inéditas de Chico Science, que conduz o documentário a bordo do seu “galaxe” num passeio noturno pelo velho bairro do Recife.

Assista ao vídeo:

 Patricia Blumberg