Há mais de 100 dias, estudantes canadenses da Província de Quebec (Canadá) se mobilizam para lutar contra uma proposta de aumento nas taxas de matrícula do ensino superior de 75% em cinco anos, e contra recente lei, Lei Especial 78, aprovada no dia 18, que criminaliza manifestações populares na província. No último dia 22 de maio, no 100º dia da greve geral, mais de 400 mil foram às ruas em uma grande marcha para levantar essas duas bandeiras.

A greve nacional foi iniciada em 12 de fevereiro, liderada por uma coalizão de 3 entidades estudantis de Quebec: Feuq ( Federação de Estudantes universitários de Quebec), Feucq (Federação de estudantes pré-universitários e técnicos de Quebec) e Classe (Coalizão ampliada Solidária Sindical Estudantil).

Desde o começo das mobilizações, 3 grandes marchas, nos dias 22 de março, 22 de abril e 22 de maio, foram organizadas, mas praticamente todos os dias os estudantes têm realizado protestos nas ruas de Montréal. “O movimento está se propagando e ganhando cada vez mais apoio da população. Assim como faziam os estudantes chilenos, aqui estamos também batendo em panelas e frigideiras todas as noites”, contou o estudante da Universidade de Laval, em Quebec.

Confira o vídeo que os manifestantes fizeram para convocar a marcha no dia 22 de março:

Manifestações são repreendidas com violência

A polícia está reagindo com violência às manifestações estudantis da província de Quebec. Feridos durante confrontos, dois estudantes perderam a visão de um dos olhos e muitos sofreram ferimentos causados por balas de borracha e bombas de efeito moral utilizadas pelas forças policiais.

“Há um clima de violência, stress e tensão. Os policiais estão usando sprays e balas de borracha, e também estão acontecendo confrontos físicos”, contou Simon, que esteve presente em duas das três grandes marchas. Até o momento, mais de 2 mil jovens foram  presos e soltos apenas após o pagamento de uma fiança no valor de US$ 600. Além disso, cerca de 700 estudantes estão respondendo à processos.

Lei Especial 78: restrição à liberdade leva 400 mil às ruas

A grande marcha do dia 22, que levou 400 mil manifestantes às ruas, foi uma resposta do movimento estudantil à Lei Especial 78, aprovada no último dia 18 pela Assembleia Nacional. De acordo com os manifestantes, a lei é uma grave restrição à liberdade de expressão.

De acordo com ela, a partir de agora, a polícia terá que ser informada sobre qualquer ato público ou protesto com pelo menos oito horas de antecedência. Além disso, caso haja adesão de mais de 50 pessoas ao protesto, o trajeto precisa ser informado às autoridades do estado. O texto também proíbe qualquer aglomeração a menos de 50 m das universidades. Tudo sob uma pena de graves multas para quem descumprir a lei.

“Lamentamos que o governo do primeiro-ministro quebequense Jean Charest tenha escolhido o caminho da repressão em vez da via da negociação”, disse um dos dirigentes estudantis, Léo Bureau-Blouin, em entrevista ao jornal inglês The Guardian. Para Simon, “a 78 é uma aberração total ao direito de manifestar livremente, previsto pela constituição”.

Negociação com o governo

Após dois meses de greve, passeatas e atos públicos, o governo Charest apresentou duas propostas de negociação, ambas rejeitadas por unanimidade pelo movimento estudantil por serem consideradas um “insulto”. Em um primeiro momento, a proposta apresentada visava melhor o programa de empréstimos e doações para os estudantes financiarem os estudos. A segunda propunha aumentar gradativamente o valor das matriculas em 87% ao longo de 7 anos, em vez de 75% em 5 anos.

Durante o dia de hoje, aconteceu mais um encontro entre as lideranças estudantis e o governo de Quebéc para tentar chegar a um acordo em relação ao aumento das mensalidades universitárias. Até o momento nada foi anunciado sobre o encontro.

Sobre o encontro, o líder estudantil Leo Bureau-Blouin, afirmou no domingo (27) que as conversas de hoje representam a “última chance” para o governo colocar um fim ao conflito. Os estudantes pediram um congelamento nas mensalidades. O governo da província de Québec descartou essa possibilidade.

Ainda não se sabe como terminará a difícil situação na província canadense de língua francesa. O que se vê é um monento histórico, como definiu o estudante Simon, no qual o verdadeiro debate deixa de ser, somente, o aumento abusivo nas taxas de matrícula das universidades.

“É um debate de sociedade, da visão da sociedade que temos. Nós queremos uma sociedade justa, que dê a oportunidade para todos, ou uma que favoreça aos que já têm muito? Queremos entregar toda a sociedade para as empresas privadas? Não e não. Queremos uma sociedade justa, com princípios que não sejam as leis do mercado e vamos lutar por isso”, finalizou.

Camila Hungria / fotos reprodução