Foi o Coronel Aires quem realizou um sonho antigo de Luiz Gonzaga: possuir sua primeira sanfona. Tal instrumento custava os olhos da cara e o rei do baião, o grande homenageado da oitava edição da Bienal da UNE, tinha apenas a metade do valor. O coronel, impressionado com o desejo atípico do garoto, adiantou a quantia, que mais tarde foi paga com o fruto do trabalho de sanfoneiro.
A história da sanfona e sua importância na cultura brasileira ganhou forma e conteúdo na mesa “O sertanejo que faz o Brasil forrozear” desta quarta-feira (23/01). O tema foi explorado pelo músico manguebit Fred Zero Quatro, pelo sanfoneiro Salatiel D` Camarão e o sobrinho do Baião, Joquinha Gonzaga.
Gonzagão foi o grande responsável por popularizar o instrumento e difundir a denominação de sanfona através do grande sucesso de sua carreira musical. Foi pelo toque da sanfona que a sociedade pode conhecer uma nova cultura, popular e sertaneja, até então desprezada. Gonzagão foi a voz de um Nordeste não-emancipado e estabeleceu com a sanfona a mais límpida comunicação com quem mais lhe interessava: sua própria gente, os mais parecidos com ele mesmo entre os brasileiros.
O histórico da sanfona
Segundo os historiadores, o mesmo povo que inventou o macarrão, a pólvora e a bússola, inventou também, 3.000 anos antes de Cristo, um instrumento musical chamado “TCHNENG”, precursor da sanfona.
“A sanfona que chegou ao Brasil era conhecida como ‘acordeon de atômico’, pois respeitava uma escala criada pelo papa Gregório baseada na imagem de Cristo. Quando Portugal colonizou o Brasil, muitos cacheiros judeus e turcos andavam no caminho do gado vendendo especiarias e tocando o instrumento, que mais tarde recebeu o nome de sanfona, por estar ligado a uma espécie de sinfonia”, explicou Camarão.
“No nordeste, especificamente, a composição da sanfona era diferente do modelo grego. Ela era afinada de acordo com quem a tocava e, assim, ia ganhando singelas características da região. Ela foi ganhando o ritmo dos judeus, dos mouros, dos holandeses e de etnias africanas. Luiz Gonzaga teve a sensibilidade de juntar as culturas do sertão para introduzir um novo som”, ressaltou.
Para Fred Zero Quatro, essa mistura é uma verdadeira lição para alguns intelectuais que persistem em se apoiar no conceito de cultura enraizada, imaculada e pura, como se fosse algo intacto. “Tudo está sempre dialogando e servindo como referência. Eu acho que essa sensibilidade do Gonzagão com outras culturas, assim como aconteceu com Chico Science, transcende as dominações de raiz. Esse é um dos maiores legados do rei para o estudo da música no Brasil”, finalizou.
Patrícia Blumberg Foto: Adolfo Sonteria