Esta semana marcou 32 anos em que a estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Clara Araújo, era eleita a primeira mulher presidenta dos estudantes brasileiros no 34º Congresso da UNE realizado em Piracicaba, São Paulo. Hoje ela é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, defende a causa feminista, os princípios socialistas e continua “sonhando com o princípio de justiça e equidade como norteador da sociedade”. Por ocasião da data, Clara deu entrevista ao site da UNE, falou sobre feminismo e relembrou um pouco sua trajetória. Confira:
Como foi o início de sua participação na UNE?
Quando fui eleita presidente já participava da diretoria. Era a única mulher na diretoria e ocupava o cargo de “Diretora de assuntos femininos”. Fui para a UNE após uma passagem intensa pelo Movimento Estudantil na Bahia. Estudava na UFBA e desde a minha entrada na Universidade comecei a participar. Com 2 meses de Universidade fui eleita delegada para o Congresso de reconstrução da UNE, que ocorreria em Belo Horizonte. Não aconteceu, muita gente foi presa, inclusive eu. Para algumas pessoas a repressão abriu processo para enquadramento na Lei de Segurança Nacional. E eu fui uma delas. Não cheguei a ser enquadrada, mas passei um tempo vigiada e tendo que ir à Polícia Federal responder a depoimentos. Participei do Diretório Acadêmico de Ciências Sociais por duas vezes, fui do Diretório Central dos Estudantes por duas gestões e fui candidata à UEB – União dos estudantes da Bahia. Foi nesse período que fui indicada para a chapa da UNE. Já frequentava os fóruns nacionais da UNE como membro do DCE da UFBA.
Quais as principais barreiras que enfrentou à frente da entidade por ser uma mulher?
Várias. Havia aquelas “particulares”, individuais e familiares, por assim dizer: sair de Salvador e ir morar em São Paulo em condições muito precárias, (a UNE não era legalizada e não havia qualquer tipo de apoio). A morada era coletiva para os diretores da UNE de fora de São Paulo e eu era a única mulher de casa. Isto em si já era um desafio, tanto de convivência como de padrões de divisão de trabalho. Era frequente já naquele período que os meus colegas supusessem que eu iria cozinhar ou esperassem isto….por outro lado as principais barreiras eram mesmo públicas , mas no meio estudantil: apelos a piadas e brincadeiras machistas nos momentos de embates. No próprio congresso da UNE que me elegeu parte da “oposição” à minha chapa puxava coro, palavras de ordem com conotações de gênero que, certamente, não seriam puxadas se tratasse de um estudante do sexo masculino. Isto ocorreu no Congresso que me elegeu e no que finalizei meu mandato. Mas ocorria também em Assembleias estudantis quando havia disputas intensas de opiniões e eu estava presente. Então, a principal manifestação veio mesmo do ambiente estudantil, de jovens homens e muitas vezes reproduzidas por meninas que faziam parte das tendências opositoras. Ter que se firmar pelas proposições, falas e discursos, não se intimidar com as tentativas de lhe descaracterizar ou vencer pela desqualificação. Mas isto foi se dissipando com o tempo. Ocorreu mais no início.
O que sonhava a Clara há 32 anos? E agora?
Eu era militante ativa e sonhava, ou melhor, militava pela conquista da democracia como direitos e liberdades e fim da ditadura, porque era o mais urgente naquele momento, mas militava também pela causa socialista e comunista. Creio que as experiências práticas do socialismo colocaram desafios que exigiram e exigem reflexões sobre os projetos que acreditávamos na época. Posso dizer que continuo uma socialista utópica, pois acredito num horizonte de princípios de justiça contidos nos princípios socialistas e continuo sonhando com o princípio de justiça e equidade como norteador da sociedade.
Hoje penso mais nesses princípios como um conjunto de questões e não como algo que tem uma relação básica proeminente. A causa feminista e igualitária ganhou mais importância, a partir, inclusive da experiência e percepção de que posições de valores não se moldam ou se resolvem a partir de uma única causalidade.
Você acha que as mulheres avançaram muito nos espaços de poder?
No Brasil, ainda muito pouco e de forma circunstancial… No mundo em geral, se observarmos os últimos 20 anos podemos dizer que houve avanços consideráveis, mas muito pequenos se comparados às conquistas em outros espaços e à participação das mulheres em organizações. O poder político continua sendo menos permeável, mas creio que sem uma crítica da separação de esferas e divisão sexual do trabalho tal como continua ocorrendo até hoje é difícil superar esse gap. A crítica e a ruptura com o paradigma da organização da vida social como dinâmicas duais entre o público e o privado, assim como a revisão da ideia de trabalho são fundamentais para redefinir esses espaços.
Cristiane Tada