Enfim, Recife. Fertilidade, diversidade e riqueza. A Caravana da UNE está agora imersa nos mangues, que “estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo”. Entre-aspas-copyleft do manifesto “Caranguejos com Cérebros”, escrito por Fred Zero Quatro, vocalista da banda mundo livre s/a e, talvez, um dos únicos ainda mangueboys originais (olinda style) a perambular pelas ruas da hellcife… ou seria a Veneza brasileira (?).
Em 1992, ano da publicação deste texto que deu um tapa na música brasileira dali para frente, o Recife era a quarta pior cidade do mundo para se viver, mas riquíssima culturalmente. Aí, surge um cara e faz a analogia entre a diversidade cultural pernambucana e a biodiversidade do mangue: Chico Science. Isso muda tudo. E o resto é provável que todo mundo já saiba. O que poucos vieram acompanhando ao longo desses 20 anos foi o desenvolvimento da maguetown, a cidade estuário.
E foi algumas respostas e reflexões que a Caravana da UNE veio buscar aqui em Recife promovendo no dia 27 de abril, na Universidade Federal (UFPE), o debate chamado de Aulão+10, com a presença do diretor-presidente da Agência de Planejamento e Pesquisa de Pernambuco, Antônio Alexandre. O objetivo dos aulões tem sido convidar figuras importantes para pensar o Brasil daqui a 10 anos sob a perspectiva da juventude. Ao longo da jornada, que teve início dia 28 de março em Brasília, algumas das personalidades que já participaram foram a presidenta da SBPC, Helena Nader; o professor Ennio Candotti e o jornalista Lúcio Flávio Pinto.
Participaram do Aulão em Recife também o presidente da UNE, Daniel Iliescu; o presidente da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP), Thauan Fernandes; o diretor da UNE, Angelo Ranieri; e a vice-presidente regional da UNE, Wilma Araújo.
Desenvolvimento x crescimento

O representante do governo pernambucano deu início à sua exposição explicando uma diferença importante de conceitos essenciais para se compreender o momento por qual o país passa hoje.
“Pelos menos há 40 anos, distingue-se o conceito de desenvolvimento econômico e de crescimento econômico. Até então, você confundia essas duas abordagens que podiam ser medidas pelos níveis de crescimento da economia. O que se discuti hoje é que o Brasil precisa dar um salto no processo do crescimento da economia, a gente não pode continuar baseando o nosso modelo de desenvolvimento apenas no aquecimento do mercado interno partindo do crescimento do consumo, isso não é suficiente”, pontuo.
“A gente precisa passar agora para uma pauta na qual precisamos ter condições e capacidade de investimento para garantir a competitividade da economia nacional, isso significa investir nos grandes gargalos que hoje reduzem a capacidade competitiva do produto nacional das atividades econômicas, seja aquelas que estão integradas no mercado global, seja aquelas que acontecem na economia de base local”, completou.
Pernambuco é estratégico no processo de desenvolvimento

Segundo Antônio, durante muito tempo, nas chamadas décadas perdidas, Pernambuco teve um comportamento que basicamente acompanhava o da economia nacional. Para ele, depois desse período foi que, felizmente, o Estado conseguiu “dar uma descolada” e a curva econômica atual tem um coeficiente mais expressivo.
“Estamos nos aproveitando de uma condição que é a nossa localização estratégica, na capacidade que nós temos em ser uma conexão entre os diversos mercados em escala global. O nosso mérito como pernambucanos foi de investir na capacidade de logística para podermos apresentar aos grandes ‘players’ mundiais a condição de sermos um ponto de referência e fazer a distribuição no mercado global entre as rotas que vem tanto da Ásia, como da Europa, como da América do Norte”, mostrou em slides a posição estratégica e a capacidade de produção do Estado pernambucano.
Suape e o efeito irradiador

A posição geográfica de Pernambuco, no centro da Região Nordeste, transforma o Complexo Industrial Portuário de Suape, nos seus 30 anos de existência, em um centro concentrador e distribuidor de cargas. A localização também torna o porto de Suape vocacionado como um porto internacional concentrador de cargas (hub port) para toda a América do Sul. Suape hoje recebe investimentos da ordem de US$ 17 bilhões. São mais de 100 empresas instaladas e outras 35 em fase de implantação.
Na visão de Antônio, Suape se consolida como grande polo não somente pela logística e, sim, porque o modelo construído para o complexo industrial permitiu a consolidação de alguns polos econômicos que tem “um efeito irradiador e multiplicador por toda e economia de Pernambuco”.
Na sua avaliação, é necessário atualmente fazer um movimento de interiorização do desenvolvimento. “Para isso tivemos que mobilizar todas as forças, tanto públicas quanto privadas para poder fazer um grande esforço de investimento e viabilizar, por exemplo, a ferrovia nordestina, plataforma logística em Salgueiro, transposição do São Francisco”, destacou.
Para a reflexão dos mais de 200 estudantes presentes ao Aulão+10, o presidente da UEP, Thauan Fernandes, que ali também encerrava uma outra Caravana que a entidade pernambucana realizou em diversas universidades, fez uma provocação. Para ele, é inegável o desenvolvimento do Estado, mas falta ainda incluir alguns setores da sociedade neste debate. “Como é que do ponto de vista da juventude, dos estudantes, da educação, nós vamos aproveitar esse bom momento?”.
Assista ao vídeo da música Livre Iniciativa, do mundo livre s/a
De Recife, Rafael Minoro
Fotos: Fábio Bardella e Ivan Russo