Alceu Valença é um veterano das Bienais da UNE. O cantor e compositor fecha a terceira noite do festival nesta terça (3) com seu “show completo de sucessos”, . Alceu é ainda uma voz importante no debate cultural do país, com suas críticas à banalização da arte e à “glamourização do lixo cultural”. Aqui ele deixa o recado aos estudantes da UNE. Valeu, Alceu!

Dois anos se passaram desde seu show na Bienal da UNE no Recife. De lá para cá, você lançou “Amigo da Arte”, colocou seu filme “A Luneta do Tempo” na praça, gravou um DVD com a Orquestra de Ouro Preto. O que preparou para o show da Bienal na Lapa? 

Farei meu show de sucessos completo. Faço questão de privilegiar a Bienal da UNE. Dentre estes estudantes estarão algumas das futuras (e atuais) melhores cabeças pensantes do país.

E o Brasil precisa pensar e redescobrir sua identidade, algo prioritário nos eventos da UNE há tantas décadas. Cantarei músicas como Tropicana, Anunciação, Táxi Lunar, Coração Bobo. E reservo um espaço para Luiz Gonzaga, em clássicos como Sabiá e Xote das Meninas. 

O sr. tem se engajado no debate cultural nos últimos anos com uma forte crítica à “glamourização do lixo cultural”. Como você concebe essa diferença entre arte e mercado? 

Esta expressão é de Mauricio Oliveira, que tocou baixo na minha banda. O Brasil precisa redescobrir sua trilha sonora. Por que uma das músicas mais ricas do mundo tem de estar entregue ao mau gosto e à banalização? Há tempos falava aos executivos das gravadoras: vocês precisam dar mais atenção aos pontos de vista do que aos pontos de venda.

A situação piorou muito, mas precisamos continuar lutando. A arte vem do pensamento e do sentimento, o entretenimento visa lucro e pouca coisa além disso. Este dura pouco mais que uma temporada, enquanto a arte permanece e consolida a identidade de um povo e sua cultura.

Você critica o conceito de “multiculturalismo” quando endossa a intromissão, em festas populares como São João e Carnaval, de gêneros alheios a esse contexto. Quais gêneros e práticas tem em mente quando desenvolve essa crítica? 

Nunca fui tradicionalista, mas costumo respeitar as tradições. No Carnaval, canto os gêneros que formaram a folia pernambucana: frevo, maracatu, ciranda, caboclinho. Na época de São João, meu show é voltado para os gêneros do agreste e do sertão: forró, embolada, xote, baião, Jackson, Gonzagão.

Não tenho nada contra o multiculturalismo, a não ser quando serve como álibi para um entretenimento estéril. Também não concordo muito com este papo de que MPB é tudo. MPB é MPB, valsa é valsa, rock é rock, fado é fado. É claro que muitos gêneros se locupletam entre si, e a combinação muitas vezes ajuda a criar novas linguagens, o que é importante. Mas não acredito na mistura somente pelo ato de misturar. 

Em sua carreira, você se antecipou à decadência das gravadoras e vem registrando seu trabalho de forma mais ou menos independente já há algum tempo. Qual é o modelo de negócio viável para a música hoje? 

A internet é uma saída. Hoje tenho a oportunidade de dialogar com meu público, tenho cerca de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais. É uma inovação extraordinária. Mas mesmo entre as gravadoras há exemplos de companhias que procuram fazer um trabalho diferenciado sem cair na mesmice e padronização superficial de tudo.

É o caso da Deck, onde estou hoje, onde o pessoal é amigo da arte e por isso consigo dialogar com eles de uma maneira espontânea e natural. E faço minha arte como sempre fiz: plena de verdade e sem concessões. 

E quais projetos mais o animam para 2015? Há um documentário em curso sobre a primeira fase de sua carreira e um DVD de forró em vista, certo? O sr.já comentou também que Valencianas representava uma nova vertente em sua carreira. Planeja novos registros nesse sentido?

As Valencianas representam uma releitura da minha obra com caráter de música de concerto. O projeto foi idealizado pelo meu amigo e compadre Paulo Rogério Lage, com o maestro Rodrigo Toffolo à frente da Orquestra Ouro Preto. Os arranjos são de Mateus Freire, que é paraibano e conhece bem as coisas do nordeste. Lançamos o CD e o DVD das Valencianas há poucos meses, pela Deck, e a repercussão tem sido excelente.

Acabo de realizar dois concertos em Portugal e o público foi ao delírio. Na Casa da Música do Porto, a plateia quebrou o protocolo, levantou-se e começou a dançar em pleno concerto, algo totalmente fora dos padrões para o público português mais ligado na música erudita. Foi mágico. Já o documentário sobre a minha carreira nos 70 é um projeto da minha mulher e empresária, Yanê Montenegro. Estamos em fase de desenvolvimento do projeto.

Da Redação