A violência sempre foi uma ferramenta de controle do corpo, sexualidade, trabalho, território e vida das mulheres, resultado de um sistema de dominação masculina que se articula ao capitalismo e necessariamente ao patriarcado e ao racismo, sistemas que se estruturam a partir dessas violações, para disciplinar e hierarquizar papéis na sociedade e explorar nosso trabalho e vida. A história da humanidade foi sendo estruturada também por outras relações de dominação, como o colonialismo e a opressão da sexualidade. Desde a colonização e escravização de pessoas negras, a violência foi um instrumento de hierarquização desses corpos e vidas, tanto de mulheres negras escravizadas que foram sequestradas de seus territórios no continente africano, quanto mulheres indígenas dos povos originários das Américas, sofreram violações e violências físicas e sexuais.

No atual contexto, com o avanço da extrema direita neoliberal e patriarcal, organizada e dirigida majoritariamente por homens brancos, velhos e heterossexuais, que seguem a cartilha da heteronormatividade, e impõe e organiza essas violências cotidianas na vida das mulheres, a violência se generalizou. Com a eleição de Bolsonaro, que escolheu a luta feminista e os direitos das mulheres como um de seus principais inimigos, a violência patriarcal se consolidou e ganhou um representante no Palácio do Planalto. Além de incentivar discursos de ódio e violência, Bolsonaro ainda articula políticas que violentam constantemente direitos já conquistados pelas mulheres nos últimos governos, o fim de programas sociais como o Bolsa Família, que era 100% no nome de mulheres que chefiavam suas famílias, o fim do programa de moradia popular Minha Casa Minha Vida, também em sua maioria, no nome de mulheres. Assim como quando nega o direito à dignidade menstrual para as mulheres brasileiras no veto ao PL 4968/19, que garantiria distribuição de absorventes nas escolas da rede pública de ensino. 

Os crescentes índices de violência contra as mulheres na pandemia do Covid-19, seja a violência física, sexual, psicológica ou patrimonial (geralmente relacionada à violências praticadas pelo marido, namorado, pai, tio, avô, padrasto), agravadas pelo contexto da pandemia e da profunda crise social, econômica e política no país, escancaram que nem mesmo em suas casas as mulheres têm um lugar seguro. As mulheres negras e das periferias, sofrem também com a violência institucionalizada do estado, por uma política de segurança pública que promove e financia chacinas nas comunidades periféricas e o genocídio e o encarceramento da juventude negra.

O país registrou um aumento de 40% das denúncias ao canal 180, segundo dados do próprio Ministério bolsonarista da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. No último ano, uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos diz ter sofrido algum tipo de violência ou agressão no Brasil, o que corresponde a 17 milhões de mulheres vítimas de violência física, psicológica ou sexual. A proporção de vítimas é maior entre as mulheres negras e as mais jovens. Mais de uma em cada três mulheres, entre 16 e 24 anos, relatam ter vivido algum tipo de violência. Entre as mulheres negras, mais de 28% delas relataram que sofreram agressões, os números estão na terceira edição da pesquisa “Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O Brasil registrou oficialmente em 2020, o feminicídio de 1.338 mulheres, praticados em sua maioria por companheiros, ex-companheiros ou pretensos companheiros, segundo dados colhidos pelo Jornal Folha de S. Paulo, nas secretarias de Segurança Pública dos 26 estados e do Distrito Federal. 

Para romper com esse ciclo de violência que assola a vida das mulheres, além da lei Maria da Penha, sancionada em 2006 no Governo Lula, e a construção de políticas públicas como serviços de acolhimento, proteção e atendimento à essas mulheres, que possibilitam autonomia financeira e contribuem para romper com esse ciclo de violências, e a lei do Feminicídio, sancionada em 2015, é importante também um amplo processo de formação e desconstrução do padrão heteropatriarcal, que reafirma a masculinidade, dominação e poder dos homens sobre as mulheres a partir da expressão dessas violências. Cartilhas informativas nas universidades, rodas de conversa e acolhimento, debates em sala de aula, mas sobretudo, a organização e o constante movimento das mulheres feministas para mudar o mundo e nossas vidas. Esse processo precisa ser iniciado muito antes das universidades, desde as escolas, nos bairros e comunidades, nos acampamentos e assentamentos da reforma agrária popular. 

A UNE convoca todas as mulheres estudantes para a construção de calouradas feministas no retorno às aulas presenciais nas universidades, para debater sobre a violência em nossas vidas e o papel central da nossa auto-organização para reconhecer, romper e denunciar essas violências, tanto em nossas casas, no estágio ou trabalho, quanto nas universidades! E faz um chamado, a cada estudante desse país, de outra tarefa central das estudantes feministas: derrotar Bolsonaro e o bolsonarismo, que articulam essas violências na política do estado, retiram cotidianamente nossos direitos, sucateando a educação e as universidades. Bolsonaro é inimigo das mulheres e da educação pública, laica, universal e socialmente referenciada, principal ferramenta de transformação da sociedade para romper com esse ciclo de violências e exploração. A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer! #ForaBolsonaro

Carol Azevedo é Diretora de Mulheres da UNE e estudante de Jornalismo na UFT (Universidade Federal De Tocantis)