Hoje, 31 de março, é a data em que o povo brasileiro sofreu seu maior golpe político de todos os tempos. Há exato 50 anos, começava um sombrio e triste período da nossa recente história: a ditadura militar.

Os acontecimentos que levaram ao golpe de 1964 foram os mais diversos. Naquele período, o mundo se dividia em duas grandes formas de pensar sociedade; de um lado o capitalismo liberal liderado pelos Estados Unidos (EUA) e por outro o Socialismo, liderado pelo bloco da União das Repúblicas Soviéticas (URSS). A América Latina, por sua vez, era um território em disputa pelas duas formas e compreensões de identificar o mundo. Os EUA, com sua estratégia de dominação econômica e política do mundo, começa a propagar nos territórios aliados da América Latina sucessivos golpes para que os regimes liberais se mantivessem sob seus domínios.

O Brasil, por sua vez, caracterizava-se pelo triunfo das forças progressistas que tinham tido vitória com a posse do presidente João Goulart (Jango), um momento histórico de grande unidade dos movimentos populares e o governo brasileiro que naquela época construiu uma grande agenda de Reforma de Bases para transformar a vida política e social do povo. Cabe lembrar que o presidente João Goulart – morto com indícios de envenenamento pelas forças golpistas – foi o único presidente da história do Brasil a visitar a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE).

As forças conservadoras e reacionárias se agregaram no Brasil, liderando os civis, o oposicionista Carlos Lacerda e os militares, o Alto Comando das Três Forças Generais, Costa e Silva e Castelo Branco, entre outros que articularam um amplo golpe ao poder democraticamente constituído, com apoio e legitimidade popular. Assim começa a tarde fria e turbulenta do dia 31 de março de 1964.

Os estudantes brasileiros foram os primeiros a serem atacados. Para se ter dimensão de como éramos uma eminente ameaça ao Novo Regime instaurado, a primeira ação concreta do governo ilegal e golpista foi invadir a nossa sede na Praia do Flamengo, 132, no Rio de Janeiro, e incendiá-la de forma truculenta e virulenta. O Estado de Exceção decretava ali seu objetivo, destruir a democracia, destruir as aspirações populares e a construção de uma sociedade justa.

A UNE, durante a ditadura militar, foi o seio dos diversos grupos (armados ou não), grupos populares, culturais e, sobretudo, agrupamentos que tinham identidade na juventude brasileira. Como aglutinadora dos sonhos, ideais e lutas desta juventude, a UNE se colocou como entidade primordial na defesa da consolidação da democracia no Brasil. Colocada na clandestinidade, a UNE teve entre seus quadros muitos dirigentes presos, torturados, massacrados e mortos pela ditadura. Entre eles, nosso presidente Honestino Guimarães, sempre presente!

A luta pela defesa da democracia e da liberdade é uma bandeira fixa e histórica da UNE e de todo povo brasileiro que não esquecerá os massacres, as mortes, as torturas, os estupros e as aberrações provocadas por um regime que se instaurou no Brasil de forma deslegitima e irresponsável.

Lembrar as mortes e a dor causada em tantos companheiros nos faz ver que o Brasil ainda não virou a página. E essa página não será virada enquanto a nossa história não for revista e responsabilizados os verdadeiros lacaios que operaram nos porões da maldade da ditadura.

Rever a Lei da Anistia, que amplia seu benefício aos culpados pelas atrocidades, rever a dita história oficial para aprofundarmos a democracia e as mudanças é nossa tarefa presente.

Não vamos sair do nosso palco privilegiado durante toda ditadura: as ruas. Nossa grande tarefa é permanecer nelas e aprofundar os avanços democráticos e populares em busca de uma nova sociedade.

* Fabrício Paz é Estudante de Direito UFMT e Diretor de Memória da UNE.