Meio século depois da Ditadura Civil Militar, marca também mais de 40 anos sem notícias de Honestino Guimarães que hoje (28) completaria 67 anos.
Um jovem que gostava de futebol, de ir à praia, de cinema, tomava chope com amigos e fez da sua vida uma bandeira pela liberdade e pela transformação social do Brasil. Esse foi Honestino, perseguido, sequestrado, torturado e morto. Pouco se sabe o que se passou ao estudante da Universidade de Brasília (UnB), de 26 anos, preso pela CENIMAR (Centro de Informações da Marinha), em 10 de outubro de 1973 no Rio de Janeiro.
A mãe de Honestino, Maria Rosa Guimarães, buscou informações sobre o filho e chegou a obter a promessa de que poderia visitá-lo no Natal do mesmo ano, em uma prisão de Brasília. Quando o dia chegou, no entanto, os militares disseram a ela, simplesmente que o filho não estava lá. Maria Rosa morreu em 2012 sem nunca deixar de procurá-lo.
“É muito louco, eu cresci ouvindo histórias, vendo fotos. Tenho poucas fotos e todas as dúvidas. Eu tinha três anos quando ele desapareceu, mas sempre ouvi histórias. Ele sempre esteve presente.”
Assim sobreviveu na memória da única filha Juliana, a presença do ex-presidente da UNE.
“Não podíamos saber o endereço nem o nome verdadeiro uns dos outros. Quando íamos nos mudar, decidimos fazer um almoço em família com ele no nosso apartamento. Me lembro até hoje do sorriso dele quando falamos dessa ideia. O abraço que ele me deu chegava a machucar. Quebramos todas as regras de segurança e tiramos fotografias aquele dia. Uma delas me marcou muito, que é ele deitado no colo da Juliana. Foram quatro, cinco horas muito felizes”, lembra Agostinho Guerreiro, colega de militância e dos tempos de clandestinidade, que se casou com Isaura Botelho, ex-mulher de Honestino e ajudou a criar Juliana.
“A grandeza dele era tamanha, que ele consentiu que a Juliana o chamasse de pai Gui [apelido do líder estudantil] e eu fosse o pai Gusto. Fomos muito amigos”, afirmou ainda Agostinho.
Todas essas lembranças foram deflagradas na audiência pública da Comissão Estadual da Verdade do Rio que marcou 40 anos do desaparecimento do líder estudantil, na Universidade Federal do Rio de Janeiro em outubro do ano passado. No ato, Juliana Guimarães lançou a campanha Trilhas de Honestino, para lembrar o pai e ter pistas do desaparecimento dele.
“É como cidadã brasileira e como filha que peço respostas que até hoje não foram dadas. O que aconteceu com o meu pai? Quem o matou? E onde está o seu corpo?”.
Quem é Honestino?
Honestino Guimarães nasceu em Itaberaí (GO) no dia 28 de março de 1947. Na década de 60 mudou com a família para Brasília (DF). Estudou no Centro de Ensino Médio Elefante Branco e no Centro Integrado de Ensino Médio. Iniciou sua militância no movimento secundarista e filiou-se à Ação Popular, organização clandestina originada de movimentos sociais católicos.
Em 1964, durante o Golpe de Estado no Brasil em 1964, Honestino estava cursando o terceiro ano do Centro Integrado de Ensino Médio de Brasília. No ano seguinte (1965) entrou para o curso de Geologia na Universidade de Brasília – UnB.
Em 1968, com o AI 5, saiu de Brasília e passou a viver, como clandestino em São Paulo com sua companheira Isaura. Em 1970 nasceu a filha do casal, Juliana.
No congresso da UNE de 1971, no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, foi eleito presidente. Combateu a ditadura até 73 quando desapareceu e não se teve mais notícias.
ANISTIA
Honestino foi o primeiro investigado da Comissão da Verdade da UNE que divulgou no ano passado um dossiê reunindo informações do período e cobrou acesso aos documentos do Estado – onde haver mais pistas sobre o que aconteceu com o estudante e onde encontra-se seus restos mortais – encaminhados à Comissão Nacional da Verdade.
Apenas em setembro de 2013 o líder estudantil finalmente foi anistiado em uma cerimônia na UnB. Um novo atestado de óbito foi entregue a família com a causa morte: dependente de tortura e atos de violência orquestrados pelo Estado.
“Se é verdade que o Honestino não reconhecia a justiça da sua época, nós também não a reconhecemos em alguns aspectos. Reforçamos o pedido da Anistia e que não cesse a busca pelos seus restos mortais. Onde está Honestino?”, discursou na ocasião a presidenta da UNE, Vic Barros.
É COMO SE A DITADURA NUNCA TIVESSE ACABADO
A família hoje, já está disposta a conceder perdão às pessoas que, enquanto agentes da ditadura, estiveram envolvidas no seu desaparecimento. Querem apenas desvendar a página em branco da vida de um dos tantos jovens vítimas da Ditadura Militar.
A campanha se organiza através do site honestinoguimaraes.wordpress.com e apesar de lidar com o passado, quer ser exemplo para o presente.
“Bombas de efeito moral, balas de borracha, espancamentos, agressões físicas e verbais, grampos telefônicos, espionagem digital, queda de páginas e redes sociais e até mesmo sequestros e desaparecimentos (…). Infelizmente, esta é uma realidade comum para quem vive em favelas e periferias, como também é para quem luta pelo direito à terra e em defesa do meio ambiente. Para essas populações,é como se a ditadura nunca tivesse acabado”, diz a apresentação da Campanha.
O texto diz ainda que “na medida em que não dermos respostas às injustiças cometidas no passado e que não interrompermos o enraizamento de práticas e valores apregoados pela ditadura estaremos perpetuando e aprofundando as injustiças e inviabilizando a própria democracia”. A UNE também luta por isso.
Cristiane Tada com informações da EBC