Lembrar é resistir. Foi com essa frase que o presidente da Comissão Nacional da Verdade e secretário Nacional da Justiça, Paulo Abrão, iniciou na noite da última quarta-feira (2/4), uma das muitas atividades que fizeram parte do Ato em Homenagem à Resistência e Luta pela Democracia, ocorrido no Teatro da Universidade Católica, o Tuca, da PUC de São Paulo, na zona oeste da capital.

Do lado de fora, a inauguração do monumento ‘’nunca mais’’ – um dos 16 que serão instalados ao longo do ano em projeto criado pela Comissão de Anistia – foi a primeira intervenção. Com discursos de professores e estudantes, leituras de poemas consagrados como ‘’Aos que vieram depois de nós’’ de Bertolt Brecht, tradução de Manuel Bandeira o totem instalado no jardim do teatro foi recebido com uma salva de palmas e muitas flores, enquanto muitos dos presentes empunhavam cartazes com as fotos dos desaparecidos e torturados políticos.

‘’Estamos inaugurando este monumento preocupados não somente com o passado, mas com o presente e o futuro. Para que as futuras gerações se atentem e fatos como esse não aconteçam mais. Falar de memória é instituir uma disputa política, é dizer que a história não é mais só contada pelo viés dos vencedores de então’’, discursou Paulo Abrão.

ARQUIVO MORTO

Logo na porta principal, antes de entrar no salão interno do ato, os participantes presentes eram surpreendidos com a intervenção “Arquivo Morto”, do coletivo Casadalapa em parceria com os Paulestinos e o Coletivo Transverso. O objetivo da arte era questionar os arquivos que ainda não foram abertos durante o regime militar. As gavetas abertas espalhadas pelo saguão de entrada simbolizavam clareza, transparência e justiça na investigação completa dos fatos ocorridos durante os anos de chumbo.

“Essa instalação é uma alusão a todos os documentos e todas as histórias escondidas que não vem à tona. Como não podemos saber de toda a história? Aqui representa todos os arquivos velhos, com as gavetas abertas e com as histórias que devem ser contadas.As fitas vermelhas simbolizam o sangue e os cravos simbolizam a luta. Dentro da instalação ainda temos três pequenos gravadores com discursos icônicos: o da outorgação do AI-5, o do Jango explicando as reformas de base e o Mariguella discursando na rádio Libertadora”, explicou Fernando Sato, um dos criadores da concepção.

MAIS HISTÓRIA, MAIS RESISTÊNCIA

Já no auditório do teatro, local simbólico por ter sido cenário de diversos incêndios criminosos e abrigo em 1978 o 1º Congresso Nacional pela Anistia, um telão exibia imagens do comício da Central, de 13 de março de 1964, quando o ainda presidente João Goulart reafirmava compromisso com as reformas de base.

Apresentado pelo ator Sérgio Mamberti, o ato contou com presenças ilustres como João Alexandre Goulart, neto de Jango, a psicanalista Maria Rita Kehl, integrante da Comissão Nacional da Verdade, a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Virginia Barros, integrantes do Movimento do Trabalhadores Sem Terra (MST), representantes da Central única dos Trabalhadores (CUT) e Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

Passaram pelo palco ainda dois velhos conhecidos: o poeta Thiago de Mello e o músico Sérgio Ricardo. Em meados dos anos 1970, ainda sob a ditadura, eles apresentaram o show ‘’Faz Escuro Mas Eu Canto’’. Enquanto o músico dedilhava o piano, o poeta declamava seu poema Madrugada Camponesa. O reencontro do poeta com o músico foi um dos pontos altos do ato. Duas figuras que viveram os anos de chumbo, agora, 50 anos depois, se reuniam para mostrar que, embora o regime tenha calado muitas vozes, as que resistiram ainda cantam pelos que foram covardemente silenciados.

O Coro Luther King, também abrilhantou a noite cantando músicas como Viola Enluarada e o Bêbado e a Equilibrista. Sérgio Ricardo e o coral se uniram em uma apresentação emocionante da canção Calabouço, feita em lembrança ao estudante Edson Luís, morto pela polícia durante protesto no Rio de Janeiro, em 1968, e executada na igreja da Sé, em São Paulo, em 1973, durante missa em homenagem a outro estudante, Alexandre Vannuchi, também assassinado.

As surpresas não pararam por aí. Em dado momento, Thiago de Mello fez uma volta ao passado. Sentado em uma cadeira no meio do palco, o poeta conta como ficou sabendo do golpe e suas primeiras impressões. Na época, Thiago vivia no Chile e estava na casa de Santiago onde hoje funciona a Fundação Pablo Neruda,ao lado do próprio poeta chileno e o então senador Salvador Allende.

Thiago emocionou também ao declamar seu poema ‘’Os Estatutos do Homem’’. Segundo ele, seus escritos eram uma resposta ao Ato Institucional de número 1 (AI-1), o primeiro da ditadura.

”Estes versos eram uma reação. Um ato institucional permanente’’, disse.

A todo instante, discursos e atividades culturais alternavam-se criando um bonito espetáculo que traduzia a resistência de pessoas que morreram lutando e também das que continuam até hoje defendendo a democracia no Brasil. Artistas, estudantes e trabalhadores foram relembrados por sua postura combativa.

Em seu discurso, a presidenta da UNE afirmou que o que se fazia naquela noite, no teatro, era uma homenagem à luta contra a censura e contra a tortura. “Toda opressão vem acompanhada também da luta contra a opressão. E essa história precisa ser contada porque acima de tudo estamos aqui hoje para homenagear a luta pela liberdade. Estudantes e trabalhadores travaram uma luta de amor e abnegação durante a ditadura militar (…) Parafraseando Paulo Abrão: a memória é nossa principal arma contra a barbárie’’, destacou.

Renata Bars e Patricia Blumberg