Semana passada tivemos mais um episódio da efervescência política pela qual passa o nosso país.  Sexta-­feira, 13 de março, mais de 500 mil pessoas ocuparam as ruas em todo o território nacional para defender a manutenção do projeto desenvolvimentista que fora eleito em outubro de 2014, a Petrobras e uma reforma política democrática, que amplie a participação e a representatividade popular nos espaços de poder e, fundamentalmente, decrete o fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais. 

Dois dias depois, domingo, 15 de março novamente as ruas foram ocupadas. O ato convocado por  setores conservadores da política e amplamente divulgado pela grande mídia, através das manchetes dos jornalões e dos principais âncoras do telejornalismo brasileiro, reuniu cerca de 2 milhões em todo o Brasil. A cobertura ao vivo, com pompas de megaevento, insistia em dizer que era um ato pacífico, pela democracia e por um país melhor. Contudo, foi muito comum ver atitudes hostis contra pessoas que apenas transitavam vestindo vermelho ou faixas defendendo a  ditadura militar. 

São Paulo, estado da federação onde, historicamente, as elites prosperaram desde as Capitanias Hereditárias, aglomerou o maior número de manifestantes que pediam exclusivamente o “fora Dilma” e o “fora PT”. Foram ao menos 200 mil pessoas na Av. Paulista. Dizer que lá se  encontravam apenas as elites é fechar os olhos para a realidade. Porém, se analisarmos a situação política do estado é bastante coerente afirmar que todos os presentes no domingo, fossem da elite  ou não, endossaram um ato com pautas de interesse da parcela mais rica da população. 

Vivemos num estado que passa por expressivos escândalos de corrupção, envolvendo cifras muito maiores que o caso da Petrobras, vide o cartel dos Trens e Metrôs. Passamos ainda por um claro  desmonte do nosso estado, as estradas estão privatizadas, 3 mil salas de aula foram fechadas, 2 mil professores da rede pública estão sem aula, o ensino superior sofre constantes cortes de verba o que destrói ano a ano nossas universidades e faculdades estaduais, as regiões periféricas, em pleno século XXI, não têm acesso ao saneamento básico e, por fim, chegamos ao absurdo de não ter nem  água em nossas torneiras.

O projeto neoliberal é evidente em São Paulo. O capital da Sabesp, nossa principal estatal, aberto na bolsa de valores novaiorquina, a privatizada linha 4 ­ amarela do metrô, 90% de todos os estudantes paulistas de nível superior matriculados em instituições privadas de ensino, por  exemplo, demonstram claramente a política privatista de Geraldo Alckmin. O ensino superior paulista, com estes números que apresenta, está em nível avançado de privatização e a mercê dos  lucros em detrimento da qualidade. Cada vez mais, o estado de São Paulo é estruturado para  atender aos poucos que têm condições de pagar.

Diante da situação política e sabendo das responsabilidades que têm cada estado ligado à  federação, fica a dúvida: aonde estavam os paulistas de domingo quando o escândalo do metrô veio à tona? Aonde estavam todos e todas quando as 3 mil salas de aulas foram fechadas? Por que não foram às ruas contra a má administração na Sabesp? Diante da péssima gestão tucana em São Paulo, por que não se viu uma faixa sequer dizendo “Fora Alckmin e leve o PSDB junto!”? 

Não é difícil chegar a uma resposta razoável a esses questionamentos. O ato de domingo não levou apenas a elite pras ruas, mas foi mobilizado exclusivamente por ela. A direita política brasileira,  liderada pela fortíssima elite paulista, resolveu dar as caras assim como fez, de maneira fracassada, em 1932 na “Revolução Constitucionalista” frente a ascensão de Getúlio Vargas, político progressista, ao poder e como fez vitoriosamente em 1964 contra João Goulart, outro político progressista, instalando um sanguinário regime militar que cerceou violentamente as liberdades democráticas do povo brasileiro. 

O momento político é bastante semelhante a 1964. A mídia golpista atua fortemente todos os dias buscando um rompimento para com os últimos 30 anos de construção política democrática, apenas para voltar plenamente ao poder, de onde nunca saíram por completo. Aos estudantes paulistas cabe atuar em favor daquilo que sempre defenderam desde a campanha “O Petróleo é Nosso”: em defesa da democracia, de um estado forte e que atenda as demandas da população, em defesa do progresso e do desenvolvimento. É preciso resistir às investidas da direita, para que nenhum passo atrás seja dado e ninguém melhor que nós, estudantes, para pautar a sociedade contrapondo a  grande mídia e as recentes movimentações golpistas.

*Henrique Domingues  é diretor da UEE-SP e Estudante da Comércio Exterior na FATEC (Zona Leste).