A Comissão da Verdade da UNE foi instalada na noite desta sexta-feira (18/01), no Recife, durante o 14º Conselho Nacional de Entidades de Base, o Coneb, encontro que reúne até o dia 21 mais de 4 mil estudante de todo o pais na Universidade Federal de Pernambuco.
O objetivo é apurar os crimes da ditadura militar (1964-1985) que por seu levantamento preliminar atingiram nada menos que 46 de seus dirigentes e líderes. Entre eles, no entanto, há uma figura singular: Honestino Guimarães, um dos maiores símbolos da resistência estudantil durante o Estado de exceção.
Não menos engajado, seu sobrinho, Mateus Guimarães, fez questão de comparecer ao lançamento e recebeu homenagem especial durante o evento. Mateus tem 27 anos e, assim como seu tio, foi estudante da Universidade de Brasília (UnB). Hoje, luta pela reconstituição dos fatos como sinônimo de justiça e liberdade. Sem dúvida, Honestino ficaria orgulhoso.
Antes do encontro, Mateus conversou com o site da UNE e elucidou alguns pontos fundamentais diante desse novo horizonte. Para o servidor público, a “Comissão da Verdade é só o início do processo de justiça”. Confira na íntegra:
Mateus, pra você qual é a importância da entrada da UNE na investigação dos crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura militar?
A comissão nacional da verdade está desencadeando esse processo de mobilização e diversas instituições estão entrando nessa luta. Nesse cenário, a UNE é determinante. A UNE é a entidade que mais sofreu na ditadura militar e, de fato, a sua entrada nesse processo traz um peso não só simbólico, mas politico. É fundamental nesse sentido.
O caso de Honestino vai ser o primeiro a ser investigado pela Comissão da Verdade da UNE. Como que você acha que pode contribuir na investigação desse arquivo específico?
Eu estou 100% a disposição para tudo. A gente está nesse processo de busca de documentação já há muito tempo e poder contar com a ajuda da UNE é realmente muito importante, sobretudo porque tem muitos documentos no Rio de Janeiro e é fundamental que a entidade possa acionar e abrir esses arquivos. Tenho certeza que a entidade vai realizar uma série de debates sobre o tema e vai lutar para obter todas as informações. Vou colaborar com o que puder e o que for necessário. Esse dossiê que pretendemos entregar, após a abertura de todos os arquivos, não só vai ser elemento propulsor da divulgação do desaparecimento do Honestino em si, mas também vai ser instrumento de mobilização para outras pessoas, para que mais familiares de mortos desaparecidos continuem se movimento. A Comissão Nacional é importante, mas ainda tem uma estrutura muito limitada. Por isso, a Comissão da UNE é importantíssima.
Honestino Guimarães, seu tio, é um símbolo da luta estudantil durante o regime, influenciando as gerações futuras e a resistência à ditadura. E para você? O que ele representa?
É muito conhecido o Honestino líder estudantil, um militante político envolvido, mas o que os jovens não conhecem muito é o Honestino ser humano. Para mim, sobretudo, ele foi um grande exemplo. Desde adolescente escrevia poemas e já dava para perceber o alto nível de sensibilidade, o sentimento de amor muito presente. A dor do outro era como se fosse a dor dele também. Foi exatamente essa qualidade, esse sentimento de ser humano, que o levou a ser essa liderança estudantil. Ele representa, sobretudo, um grande exemplo de ser humano, que cumpriu um papel fundamental na resistência à ditatura.
O movimento estudantil foi o mais visado e atingido pela repressão. Compõe 25% dos 183 desaparecidos divulgado pelo governo. O que você acha que o Estado deve fazer com os familiares dessas vítimas?
É importante a gente compreender a importância da apuração desses casos específicos. Se a gente for pegar crimes cometidos contra cidadão brasileiros, pode-se dizer que na maioria dos crimes, de uma forma ou de outra, o Estado tem algum tipo de culpa, seja por omissão ou por violação dos direitos humanos. O Estado tem um certo nível de participação e responsabilidade, afinal, foi o próprio protagonista, o mandante e o executor desses crimes. Isso já é um absurdo em si , pensar que o Governo disponibilizou agentes públicos para fazer o que fizeram. Hoje, ele já tem maturidade de reconhecer essas barbaridades e compreender que se permitimos seguir com essa lacuna, podemos sinalizar um futuro perigoso, de impunidade e de injustiça. Eu espero, sinceramente, que a partir desse processo a gente possa retomar um pensamento crítico sobre que pais é esse que estamos construímos e no que podemos avançar a partir desse processo. A Comissão da Verdade é só um início do processo de justiça.
Patricia Blumberg
Marcelo Oliveira/ASCOM CNV