A desenfreada especulação imobiliária e a excludente lógica das cidades brasileiras foram os temais centrais da mesa “Reforma Urbana democrática: mobilidade, moradia, segurança, cultura e os demais temas relativos à cidade”. O debate abriu as atividades deste sábado (21/3) no 63o Conselho Nacional de Entidades Gerias (Coneg) da UNE, realizado na Uninove, em São Paulo. 

Participaram da discussão Guilherme Boulos, coordenador do Movimentos do Trabalhadores Sem Teto (MTST); Beto Teoria, presidente nacional da Nação Hip Hop; e Adami Campos, do Instituto Brasileiro de Ciências de Governo (IBCG).

Hoje, 85% da população brasileira vive nos centros urbanos, que foram palco e motivação da indignação da juventude brasileira nos últimos tempos, como ocorreu nos protestos contra o aumento das tarifas de ônibus nas jornadas de junho de 2013. Contudo, esta insatisfação dos jovens excluídos têm sido canalizada pela opinião conservadora, opinam os debatedores.

EXCLUSÃO E ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

Beto Teoria observa que os jovens que moram nas periferias das cidades não tem direito à cidade. “Eles tem acesso à violência, à insegurança, à falta de opções de lazer: tudo, menos à cidade”, afirma. “Essa falta de direito à cidade cria todo um efeito dominó que muita gente não percebe: cria as condições que levam a molecada para o crime em decorrência da sua exclusão.” 

Campos entende que as nossas cidades refletem diretamente a estrutura do capitalismo adotado no país. “Se o capitalismo que temos é excludente, naturalmente as nossas cidades adotam a mesma dinâmica de exclusão”, analisa.

Para Boulos, neste último período, nós tivemos uma “contrarreforma urbana”, pois as cidades se tornaram o principal espaço da contradição brasileira: os incentivos do governo federal à construção civil geraram por um lado empregos e acesso ao crédito, mas de outro uma especulação imobiliária desenfreada, que despeja os moradores para regiões cada vez mais periféricas. 

“Apesar do Minha Casa, Minha Vida ter construído 2 milhões de moradias nos últimos anos, o déficit habitacional no Brasil continuou em 5 milhões de moradias, porque a lógica da especulação imobiliária é uma máquina de construir sem-teto”, afirma o coordenador do MTST. “Ao não enfrentar esta lógica excludente, o governo federal está enxugando gelo”, pontua.

REFORMA URBANA

Campos defende que a reforma urbana deve ser entendida como uma questão nacional, que deve ser incluída dentro de um projeto de país. “O ponto não é estabelecer uma política urbana para solucionar problemas pontuais, mas a reforma urbana passar por um projeto nacional de desenvolvimento com inclusão”, afirma.

Segundo Boulos, a reforma urbana envolve regulamentar o setor imobiliário e levar o centro para a periferia e a periferia pro centro: “levar a infraestrutura que tem no centro para as periferias e ao mesmo tempo levar os pobres para morar no centro por meio de políticas de desapropriações de imóveis ociosos.”

Beto Teoria aponta que essa reforma deve ser cultural também. “Nós precisamos levar a cultura da periferia, a cultura hip hop, do funk para o centro, para as cidades. Não toca hip-hop no Theatro Municipal, mas no CEU da quebrada” provoca. 

INSATISFAÇÃO DA PERIFERIA

Beto observa que os jovens que moram nas periferias têm cada vez mais reproduzido o discurso das elites. “O mano que entra na universidade com o ProUni e com Fies e que veem os seus pais ter uma moradia com o Minha Casa, Minha Vida são aqueles que estão criticando o governo como a elite, não entendem de onde vem estas conquistas”, conta o presidente do movimento Hip-Hop. “É preciso fazer a discussão com a galera da periferia, levar a luta para as periferias de fato.”

“Nós vemos lamentavelmente que a direita é quem está canalizando a insatisfação da juventude gerada por este modelo de cidade excludente”, observa Boulos. “Muitos destes jovens participaram da manifestação do último dia 15 de março, marcada por uma pauta antipopular, preconceituosa e de direita. Os movimentos sociais devem disputar este espaço e barrar o avanço dessa onda conservadora.” 

DA REDACAO