A inclusão social e a criação de uma instituição de ensino pública popular, comunitária e democrática foram os principais pontos de um dos debates deste sábado (21), no 63o Conselho Nacional de Entidades Gerais (Coneg). O tema da mesa foi “A Democratização da estrutura interna da universidade nos marcos da sua composição social”.

Foram convidados a discutir o assunto o vice-reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Antonio Andrioli; a professora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Fabiana Costa e o estudante de Economia da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) Araraquara, Rafael Carneiro.

MAIS DEMOCRACIA, MENOS AUTORITARISMO

A necessidade de ampliar a democracia no ensino superior foi bem ilustrada pelo caso da UNESP, que expulsou 17 estudantes no começo de 2015 por terem ocupado a reitoria pedindo o fim de cortes e mais direitos. “A UNESP é um exemplo de instituição antidemocrática”, afirmou Rafael. “Ela sempre foi o laboratório da repressão nas universidades estaduais para servir de exemplo para as outras.”

Após a reintegração de posse realizada de forma violenta pela Polícia Militar, a reitoria da UNESP abriu uma sindicância interna que perseguiu os alunos participantes do movimento estudantil. “Os alunos eram convocados para a depor de forma policialesca, de forma a intimidar os estudantes”, contou o estudante.

Já o vice-reitor da UFFS  Antônio Andrioli abriu sua fala com uma provocação. Para ele, “ a universidade é a instituição mais conservadora que a humanidade já construiu até hoje”, disse. E completou:

“Precisamos ter na universidade o que o seu próprio nome diz: unidade na diversidade, com as diversas formas de pensar, de culturas e de manifestação destas culturas”.

Já a professora Fabiana chamou atenção para o combate ao preconceito no interior das instituições. “A tolerância aos estudantes negros, indígenas, pobres, LGBT e de outras minorias é central no processo de democratização”, opinou.

PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA NAS UNIVERSIDADES

A participação da comunidade nas universidade públicas têm crescido nos últimos  com a criação de novas instituições no interior do país, como a UFFS e a UFSB. Essas experiências buscam criar um novo modelo de universidade democrática e popular. “A ideia é uma instituição construída pela comunidade e para a comunidade”, afirmou o professor Andrioli. 

“A UFFS conta com um Conselho Estratégico e Social, onde há uma participação paritária de todos os setores da universidade e da sociedade civil nos rumos da instituição”, contou . “O objetivo é construir uma universidade que não seja apenas pública, mas popular”, disse.

O mesmo ocorre na UFSB, onde também existe o incentivo para a formação de professores dentro da própria comunidade e para que os alunos das escolas públicas locais se tornem estudantes da instituição. “É preciso formar professores no interior do país, fora da lógica de ensino tradicional, que fiquem em suas comunidades e tragam uma forma de ensino mais apropriada para a sua região”, avaliou a professora Fabiana.

INCLUSÃO COM EXCELÊNCIA

De acordo com os participantes da mesa, um dos maiores desafios dessas universidades é ampliar a inclusão social e transformar o entendimento de excelência. “No mundo acadêmico, essas instituições são criticadas por focarem muito na inclusão. Mas a inclusão social não traz a queda na qualidade das universidades”, afirmou Fabiana. 

A professora observou que a instituição ideal  não é apenas aquela que expande o acesso, mas aquela que garante a participação dos estudantes com o que eles trazem de melhor nas suas vidas. “Isso acontece por meio da desconstrução da estrutura curricular, buscando uma maior interdisciplinaridade. É preciso produzir uma pedagogia ativa que faça o estudante refletir sobre o seu papel na universidade”, avaliou.

Na UFFS, 90% dos estudantes são de escolas públicas do sul do país e há uma política de cotas que vai além da lei, com ainda mais vagas para estudantes indígenas e negros. “Nosso objetivo é fugir do elitismo e da meritocracia. Construir excelência acadêmica junto com inclusão social”, disse Andrioli. “É fazer com que a universidade se adapte a essas pessoas, às condições de estudo dos trabalhadores”, frisou.

Nos últimos doze anos, o governo criou 18 novas universidades federais no interior do Brasil. Para Andreoli, este é um momento propício para a construção de instituições públicas, populares e democráticas da maneira mais radicalizada possível. “Nosso objetivo é criar um movimento de universidade federais que caminhem em uma nova direção, que fujam da natureza elitista que ainda apresentam até hoje”, afirmou.

DA REDAÇÃO