Vice-presidente sudeste da UNE, fala de conjuntura, os desafios do movimento estudantil e o papel da UNE como ferramenta de luta dos estudantes brasileiros

Falar da União Nacional dos Estudantes é falar da própria história de luta do povo brasileiro. Fundada em 1937, a UNE nasceu em um período de intensas transformações políticas e rapidamente se consolidou como uma das principais organizações da juventude no país. Ao longo de sua trajetória, esteve presente nos momentos mais decisivos da história nacional, desde a campanha “O Petróleo é Nosso” até a resistência à ditadura militar, passando pela luta pelas Diretas Já e pela defesa permanente da educação pública. A UNE nunca foi apenas uma entidade estudantil, mas um instrumento político de organização da juventude em torno de um projeto de país, articulando a luta imediata por direitos com a construção de um horizonte estratégico de transformação social.

Essa trajetória é marcada por uma profunda relação com os processos políticos nacionais e pelas contradições de cada período histórico. A UNE foi protagonista em momentos de avanço democrático, mas também enfrentou períodos de forte repressão e tentativa de apagamento. Durante a ditadura militar, teve sua sede incendiada, foi colocada na ilegalidade e viu seus militantes serem perseguidos, presos e assassinados. Ainda assim, seguiu existindo, reorganizando-se na clandestinidade e mantendo viva a chama da resistência estudantil. Esse elemento não é apenas um dado histórico, mas uma chave de leitura para o presente: a UNE se constrói como uma organização que não depende das condições ideais para existir, mas que se reinventa nos momentos de maior dificuldade, mantendo sua capacidade de mobilização e direção política.

A conjuntura atual impõe desafios que, embora distintos em forma, dialogam com esse histórico de enfrentamentos. Vivemos um período de intensificação da disputa política no Brasil, marcado pela reorganização de setores conservadores e da extrema direita, que seguem atuantes na sociedade e nas instituições. Ao mesmo tempo, a juventude brasileira enfrenta um cenário de incertezas, marcado pelo desemprego, pela precarização das condições de vida e por dificuldades concretas de acesso e permanência na educação. A ausência de um projeto nacional de desenvolvimento plenamente consolidado, capaz de articular crescimento econômico com justiça social, impacta diretamente a realidade dos estudantes.

No campo educacional, os desafios são estruturais e persistentes. As universidades públicas enfrentam limites orçamentários que comprometem seu funcionamento e sua capacidade de expansão. A permanência estudantil segue sendo uma das principais barreiras para a juventude pobre, negra e periférica, que, mesmo quando consegue acessar o ensino superior, encontra dificuldades para se manter. No ensino básico, reformas recentes aprofundaram desigualdades e fragilizaram o caráter público da educação, ao mesmo tempo em que se intensificam tentativas de despolitização dos espaços escolares e de criminalização da organização estudantil.

Essa realidade não se restringe ao Brasil. Em diversos países, o movimento estudantil tem sido protagonista de mobilizações contra o avanço do neoliberalismo, em defesa da educação pública e contra políticas de austeridade. Ao mesmo tempo, cresce a repressão estatal sobre essas mobilizações, evidenciando que a disputa em torno da educação e da juventude é também uma disputa de projeto de sociedade. O movimento estudantil latino-americano, historicamente articulado por meio de organizações como a OCLAE, tem papel fundamental na construção de uma agenda comum de luta, baseada na soberania, na integração regional e na defesa dos direitos sociais.

Sob uma perspectiva marxista, compreender o papel da juventude e da educação é compreender também sua centralidade na luta de classes. A escola e a universidade não são espaços neutros, mas territórios de disputa ideológica, política e social. É nesses espaços que se formam consciências, se constroem visões de mundo e se disputam os rumos da sociedade. Por isso, os ataques à educação pública e à organização estudantil não são casuais. Eles fazem parte de uma estratégia mais ampla de manutenção da ordem vigente, que busca limitar a capacidade crítica e organizativa da juventude.

Nesse cenário, a UNE reafirma sua importância histórica e sua atualidade política. Mais do que uma entidade de representação, ela atua como instrumento de organização coletiva, de formação política e de articulação nacional das lutas estudantis. Sua força está na capacidade de unificar diferentes setores da juventude em torno de pautas comuns, ao mesmo tempo em que contribui para elevar o nível de consciência e de organização do movimento estudantil. Os desafios do próximo período exigem uma UNE ainda mais enraizada na base, capaz de dialogar com a juventude real, que vive as contradições do Brasil profundo, e de se conectar com as novas formas de organização e comunicação. Exigem também uma entidade com clareza estratégica, que compreenda o papel do movimento estudantil não apenas na defesa de direitos imediatos, mas na construção de um projeto de país que enfrente as desigualdades estruturais e a dependência econômica.

Ao longo de sua história, a UNE mostrou que a juventude organizada é capaz de influenciar os rumos do Brasil. Em um contexto de intensas disputas políticas e sociais, essa capacidade se torna ainda mais necessária. A luta por educação pública, por direitos e por um futuro digno está diretamente ligada à luta por um novo projeto nacional. E é nesse processo que a UNE segue sendo, ao mesmo tempo, memória, presente e ferramenta de transformação.

*Kayque Lourenço é vice-presidente sudeste da UNE.

Referências

União Nacional dos Estudantes. Documentos históricos e resoluções políticas (1937-2026).

Poerner, Arthur José. O Poder Jovem: História da Participação Política dos Estudantes Brasileiros.

Sanfelice, José Luís. Movimento Estudantil: A UNE na Resistência ao Golpe de 1964.

Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista.

Vladimir Lênin. O Estado e a Revolução.

OCLAE. Documentos sobre o movimento estudantil latino-americano e internacional.