Atléticas são muitas vezes a porta de entrada das estudantes a prática da modalidade, mas falta apoio, materiais e treinamento específico
A Copa do Mundo de futebol feminino acaba de começar e tem dado destaque a jogadoras até então desconhecidas, mas que estão na caminhada do esporte desde muito jovens, como a maranhense Ary Borges (22 anos), autora dos 3 gols na partida de estreia da seleção brasileira.
O futebol feminino, ainda é pouco valorizado no país do futebol, mas a prática tem crescido em visibilidade, aumento do patrocínio dos times, premiações, e em audiência. De acordo com o estudo “Marcas em campo! O futebol e a mídia dentro e fora das 4 linhas”, da Kantar Ibope, as mulheres já representam 44% da base de fãs de futebol no Brasil. A TV Globo registrou um recorde de audiência na vitória da França sobre o Brasil por 2 a 1 na segunda rodada do Grupo F da Copa do Mundo Feminina. No Painel Nacional de Televisão (PNT), a emissora alcançou os 16 pontos, maior índice do horário nos últimos 15 anos.
E se ainda não alcançou o mesmo destaque que o futebol masculino, não é por falta de vontade delas.
Nas universidades brasileiras, as atléticas, tem desempenhado um papel importante de fortalecimento da modalidade e também com o lugar onde as mulheres estudantes encontram incentivo para iniciar.
Isabela Marinho dos Santos, participa da Atlética de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e treina futebol de salão. Ela acredita que muitas jovens não tiveram oportunidade quando mais novas, nunca tiveram apoio ou incentivo dos pais na infância para treinar ou procurar um time. “ Quando elas chegam na universidade e tem uma atlética, ela se arriscam, querem jogar, competir, tem um sentimento de fazer parte”, explica.
Ana Julya, da Atlética de História da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), conta que ela mesmo teve muito receio de praticar a modalidade no começo. “É normal ter um medo de ir para os treinos, de não se dar bem, pensar que é um esporte para homem. Hoje em dia é mais fácil, mas ainda acontece isso”, afirma.

Treino do time da UFRN
A passos lentos
A estudante e jogadora do time de futebol da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Giselly Galdino da Silva, já veio do ensino médio com o incentivo, treino e a gana de integrar o time da universidade. Porém, quando chegou na UFRN em 2020, a pandemia deu um banho de água fria nos planos. Só em 2022 com a volta as aulas presenciais começaram os treinos, e de uma forma meio informal. “Quem passava os treinos era um graduando de educação física, ao contrário do time masculino que tinha um professor específico”, conta.
As práticas começaram com poucas participantes e o treinador fazia o que podia. O primeiro treino com todas as meninas do time, foi no dia da estreia no primeiro campeonato. “As meninas que trabalham e estudam, mesmo não podendo frequentar os treinos queriam muito participar”. Apesar das adversidades, ela afirma que foram bem na competição, sendo o melhor resultado de um time de instituição federal. Ainda sim, elas perderam o treinador.
E só conseguiram outro neste ano, um treinador voluntário de fora da universidade. “Até agora não temos nenhum professor da UFRN para assumir nosso time ”.
A atleta de futsal Jacielly Soraya Flôr Caetano, também da UEPB, da mesma forma sente uma falta fé e apoio da administração da instituição no time feminino da sua universidade.
“Tivemos um projeto para disputar os últimos jogos universitários, mas acabou que não fomos porque falaram que a equipe não estava bem preparada”, conta. E cobra um incentivo “de verdade e não só uma obrigação”.
Ela destaca o horário dos treinos que geralmente bate com o de trabalho, aulas, ou é num período muito quente do dia, a necessidade de material, e um acompanhamento físico e psicológico para além dos treinos como pontos importantes que faltam para a modalidade crescer.
E elenca mais: “a questão de valorizar o que se tem na UEPB. Não só as atletas que estão no curso de educação física, mas nos outros cursos também. Ter um calendário para manter o time em atividade, tudo isso conta”.
Isabela da UFRJ também mencionou a falta de materiais para impulsionar a prática na maior instituição de ensino do Rio de Janeiro. Para ela bolsa de incentivo para os atletas seria fundamental para a prática do esporte em todos os níveis e para um bom desempenho. “ Essa bolsa ajudaria tipo, meninas que jogam de tênis, porque não tem chuteira, caneleira. Hoje uma que tem empresta para outra nos jogos. O material, as coisas do futebol, tem um custo. Para além disso, se se lesiona, como eu estou sem jogar há tempos por uma lesão e não tenho como fazer fisioterapia”, explica.