Autores têm vivência em batalhas de rap e queriam mostrar saber emancipatório do estilo musical
Os estudantes Carlos Augusto e Adham Martins, ambos de 23 anos, graduandos em psicologia na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), viralizaram nas redes na última semana por conta da apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso da dupla, o temido TCC.
Os jovens fizeram uma leitura sobre o álbum “Eu também sou um Anjo” do rapper VND, jovem de Honório Gurgel, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O artista fluminense costuma registrar por meio da música a vivência dos negros das periferias.
De acordo com Adham a proposta do trabalho precisava envolver psicanálise e racismo. “Pensamos em trazer outro elemento que pudesse dialogar com esses marcadores, daí surgiu o rap como possibilidade de articulação, já que o rap fala sobre racismo e poderíamos estabelecer uma compreensão pela psicanálise. Outro fator importante é que já fazíamos rap na época dessa decisão então seria falar de algo que estamos envolvidos”
Carlos Augusto, ou Guto como gosta de ser chamado é compositor de diferentes estilos musicais. Além disso, é organizador de algumas apresentações artísticas como shows e batalhas de rap. Já Adham participou das batalhas da sua cidade, Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá.
Primeiro veio um projeto de pesquisa que visava uma revisão bibliográfica envolvendo rap, psicanálise e racismo. Foi quando terminaram a filtragem do material que eles perceberam que queriam outro tipo de abordagem.
Os estudantes contam que rejeitaram um olhar somente acadêmico e bibliográfico sobre o rap. Com isso, usando um rap de material de análise conseguiram fazer uma ponte entre a psicologia e a universidade, lugares ainda bem elitizados com uma expressão da cultura popular e periférica.
“Após a defesa conversamos com alguns amigos e eles apontaram que boa parte das pessoas ali nunca ouviram esse álbum, e graças a gente mais do que ouvir eles tiveram que ler sobre e na universidade. Nossa intenção foi não só dar uma valorização acadêmica para o rap, mas para mostrar que temos um saber já articulado e emancipatório que pode dialogar com a academia”, afirma Adham.
E a nota 10 veio. A comemoração foi coletiva com familiares e amigos. “É extrema importância receber um 10, pois demonstra como nosso trabalho é importante e original. É uma sensação de que o esforço aplicado na construção não foi vão, fora que pessoas pretas receberem um 10 em um curso elitizado como a psicologia, torna-se algo extremamente simbólico e representativo”, ressaltou Guto.
“Sabemos também que nossos passos sempre são coletivos e não deixamos isso para trás nesse processo, poder usar nossa temática de estudo até para dialogar mais com nossa comunidade é gratificante”, completou Adham.