Produção literária e influências periféricas foram assunto na mesa que trouxe duas ganhadoras do Prêmio Jabuti
Grandes nomes da literatura contemporânea brasileira marcaram presença na 13ª Bienal da UNE, que segue até domingo (5), na Fundição Progresso, no tradicional bairro da Lapa.
Duas vencedoras do Prêmio Jabuti, as escritoras Eliana Alves Cruz e Cida Pedrosa, participaram da mesa “A potência da palavra”, realizada na quinta-feira (2), no espaço Carolina Maria de Jesus, na Laje Pixinguinha.
Os estudantes disputaram o espaço para acompanhar o debate, que também contou com a presença do ator, escritor e roteirista, Gregório Duvivier, o escritor e autor de Via Ápia, Geovani Martins, e o influenciador literário e integrante do projeto Funkeiros Cult, de Manaus, Dayrel Teixeira.

“Aqui, neste momento, a UNE celebra a democracia, celebra principalmente a possibilidade de estarmos juntos”, comemorou Pedrosa, que também é vereadora no Recife pelo PC do B.
Um dos momentos mais emocionantes da mesa foi quando a escritora recitou um dos trechos de seu livro de poesias, Araras Vermelhas, uma homenagem à resistência contra a ditadura.
“Esse rio de jovens que estão aqui juntos para pensar um Brasil novo, neste momento em que Lula ganha as eleições e que a gente tá lutando o tempo inteiro contra o estado de golpe, e aí conseguimos juntar aqui essa turma toda para pensar, isso é muito bom”, comentou emocionada.
A oportunidade se reencontrar presencialmente para debater a cultura com os jovens, depois do período de distanciamento provocado pela pandemia e após os quatro anos de ataques ao setor cultural pelo governo Bolsonaro, também foi festejada pelos convidados.
“É o melhor lugar do mundo, a coisa que eu mais gosto, quando a literatura, a cultura e o teatro viram um evento que reúne muita gente”, celebrou Gregório Duvivier.
O ator e escritor classificou a literatura como um caminho para desenvolver as lutas sociais e mudanças estruturais do país, desmistificando a ideia de lugar cristalizado, pertencente apenas à elite brasileira.

“Fico muito feliz de ver a literatura sendo debatida e trazido para o centro do palco, o centro da discussão. Todos têm que ter acesso à literatura. Ela é o que empodera os seres humanos, que faz eles entenderam também que são protagonistas de uma história”.
A força das palavras movimentadas por meio da literatura foi o que ressignificou a trajetória do influenciador literário, Dayrel Teixeira. “Vim de Manaus (AM) pra cá justamente com o poder da palavra”, enfatiza.
Dayrel revelou ao público como o seu encantamento com o mundo literário e o trabalho desenvolvido a partir disso no projeto ‘Funkeiros Cult’ o levou a construir pontes com a juventude que o cerca.

“Eu senti a necessidade de eu mesmo mostrar e trazer a arte e a literatura para a minha galera”, afirmou.
Racismo estrutural e literatura
Algumas das falas mais emocionantes da mesa vieram a partir das reflexões propostas pela premiada escritora Eliana Alves Cruz.
Além de abordar pontos importantes da obra de Carolina Maria de Jesus, que inspirou o nome do espaço de debates, a ganhadora do Prêmio Jabuti descortinou a realidade de muitos autores e autoras pretos do país.

“Se a gente entrar numa livraria, ainda somos um cantinho”, explicitou Eliana, que emenda: “A gente precisa descolonizar a nossa mente e o nosso olhar, para todos os saberes do mundo”.
Para a escritora, o maior legado de Carolina Maria de Jesus deixado para o povo preto brasileiro foi a compreensão da potência da palavra para romper com o silenciamento e reconhecer o poder da própria voz.
“A Carolina ela não é importante para o Brasil. Ela é importante para o mundo, uma artista plural. Quero ver quem tem a coragem de fazer na condição dela o que ela fez”, analisou.