Porque mesmo que queimem a escrita,
Não queimarão a oralidade.
Mesmo que queimem os símbolos,
Não queimarão os significados.
Mesmo queimando o nosso povo,
Não queimarão a ancestralidade.
– Nego Bispo
O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é mais do que uma data simbólica; é um marco de resistência e organização do povo negro em um país que se ergueu sobre as bases da exploração, colonização e morte de nossos ancestrais. Não se trata apenas de lembrar Zumbi dos Palmares e Dandara dos Palmares, líderes do Quilombo dos Palmares, mas de evidenciar que nossa luta contra o racismo, a violência e as desigualdades é contínua, diária e coletiva.
Vivemos em um Brasil estruturado pela necropolítica, onde nossos corpos negros são constantemente alvos do genocídio estatal, perpetuado por um sistema penal seletivo. A juventude negra é assassinada todos os dias, seja pelas balas das polícias militares, seja pelo não acesso a direitos básicos como educação, saúde, cultura e segurança. Somos 77% das vítimas de homicídios no país. A cada jovem negro morto, perdem-se não apenas sonhos, mas também a possibilidade de um futuro diferente para nossas comunidades.
Resistimos no passado com figuras como Zumbi, Dandara, Tereza de Benguela, Luís Gama e Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, e seguimos resistindo por meio das vozes de Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Benedita da Silva e Marielle Franco, que nos inspiram na contínua luta por justiça social. Nossa história, muitas vezes sistematicamente apagada, é também uma história de construção e protagonismo político. É essencial exaltar nossos “heróis de barracões” e as incontáveis Marias, Marielles e Mahins que simbolizam a resistência. Essas figuras representam a luta incansável por liberdade e igualdade, que nunca veio do céu ou das mãos de Isabel, no dia 13 de maio de 1888, mas foi conquistada com a força e o sangue de quem enfrentou e desafiou as opressões.
Nos períodos mais sombrios da história brasileira, como a ditadura militar, a luta do povo negro continuou a ser invisibilizada, mesmo enquanto militantes negros enfrentavam torturas, perseguições e mortes na resistência ao regime. Exemplos como Carlos Marighella, destacado líder da luta armada e defensor da emancipação do povo negro, mostram que nossa luta sempre esteve entrelaçada com o combate à opressão autoritária. Nesse contexto, surgiu o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, em plena ditadura, como uma das principais organizações de luta contra o racismo e as desigualdades estruturais. O MNU denunciou a violência racial, o apagamento histórico e a exploração da população negra, ao mesmo tempo em que resgatava o orgulho da identidade afro-brasileira e exigia políticas públicas de reparação. Sua criação foi um marco na organização política negra e permanece como um exemplo de resistência coletiva e articulação para a transformação social.
Essa luta não se restringiu às trincheiras físicas, mas também ao campo ideológico e cultural. Militantes negros, muitas vezes apagados da memória oficial, usaram as artes, a educação e os movimentos sociais como ferramentas para denunciar as injustiças do regime e para preservar nossa história e cultura. Esses esforços foram cruciais para sustentar as bases da resistência negra, mesmo em um contexto de censura e perseguição.
Enquanto povo negro, exigimos muito mais do que discursos. Acreditamos na necessidade de políticas públicas efetivas, como o Plano Juventude Negra Viva, e na desmilitarização da polícia, um aparato historicamente projetado para controlar e reprimir nossas vidas, corpos e territórios. Reafirmamos que a redução das desigualdades sociais e raciais exige a implementação de ações afirmativas que garantam não apenas o acesso, mas a permanência nas universidades e a construção de um futuro para nossos jovens. Também é essencial abordar as condições de exploração no mercado de trabalho, que afetam desproporcionalmente a população negra. Um exemplo disso é a escala de trabalho 6×1, que impõe jornadas exaustivas e limita o tempo para educação, lazer e convivência familiar, perpetuando a precarização da mão de obra negra. O fim dessa prática e a garantia de condições dignas de trabalho são passos fundamentais na luta por justiça e igualdade.
O recente episódio de racismo nos jogos jurídicos de 2024, onde alunos da PUC-SP foram denunciados por ofensas a estudantes cotistas da USP, reforça como o racismo segue impregnado nas estruturas e práticas cotidianas da sociedade brasileira. Apesar dos avanços na inclusão de negros e negras no ensino superior, episódios como esse evidenciam a resistência de parcelas da elite acadêmica e social em aceitar a presença e o protagonismo de corpos negros em espaços que historicamente nos foram negados. Essa violência simbólica e verbal busca reafirmar a exclusão e fragilizar conquistas duramente alcançadas por meio de políticas afirmativas e pela luta histórica do movimento negro.
Quando celebramos o 20 de novembro, reafirmamos que a luta é contra o racismo estrutural e contra as forças que tentam nos silenciar. Por isso, em memória de Dandara, Zumbi, Lélia, Nego Bispo e Marielle, convocamos nossos irmãos e irmãs a se organizar para a derrota do racismo e a se autoorganizar através dos coletivos de estudantes negros/as, para afrontar o racismo e resistir pelos nossos direitos, identidades e por nossas vidas. Seguiremos à marcha de Zumbi na luta pela libertação de nosso povo e a superação desse sistema. Por isso, enquanto movimento estudantil temos a tarefa central de organizar um grande Encontro de Estudantes Negros e Cotistas da UNE no próximo período para articular a luta antirracista em cada universidade e em cada entidade estudantil desse país.
*Afonso Dias, é diretor de Combate ao Racismo da UNE.