Confira o artigo do diretor de Relações Internacionais da UNE, Pedro Lucas: 

A construção de um país mais justo não se faz apenas nas estruturas formais da política institucional, mas também, e principalmente, nas ruas, nas praças, nas universidades e escolas, nos locais de trabalho e produção, onde o povo toma para si a responsabilidade de construir o futuro. É nessa direção que se organiza o Plebiscito Popular, fruto da ação conjunta das frentes Brasil Popular, Povo Sem Medo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e de tantos outros movimentos sociais que estão comprometidos com a construção de um Brasil mais digno para sua gente.

O Plebiscito Popular pelo Fim da Escala 6×1 e Tributação de Bilionários não é apenas um instrumento de consulta: é um exercício de soberania popular. Experiências anteriores nos provam que, quando o povo é chamado a se posicionar, a história muda de curso. Basta recordar o plebiscito contra a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), em 2002, quando milhões de brasileiros se levantaram contra o projeto de submissão da economia brasileira aos interesses estrangeiros. Aquela vitória não se resumiu ao resultado das urnas populares — foi também uma demonstração de força coletiva, capaz de afirmar um projeto nacional em meio às pressões do mercado internacional.

Estamos debatendo questões centrais para a vida da classe trabalhadora. A redução da jornada de trabalho, sem redução de salário, é uma luta histórica e que voltou a alcançar fôlego no debate público. Num país em que a produtividade nas fábricas e os lucros das empresas só cresce, e que os trabalhadores seguem submetidos a longas jornadas, é preciso fazer ecoar a pergunta: a quem serve esse modelo de trabalho que nos leva à exaustão?

Defendemos o fim da escala 6×1, que impõe um ritmo brutal, esvaziando o tempo dedicado à família, ao lazer e à formação pessoal. Do mesmo modo, colocamos em pauta uma reforma tributária que finalmente enfrente as desigualdades de forma estrutural, com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil por mês e taxação justa para quem recebe acima de 50 mil por mês. Soma-se a isso a taxação das grandes fortunas, algo que diversas economias pelo mundo já aplicam, enquanto o Brasil segue como um dos países mais desiguais do mundo (Oxfam, 2023). Queremos uma sociedade em que o trabalho sirva à vida, e não o contrário.

A UNE se soma a esta construção com a força de quem conhece, na pele, a realidade do povo trabalhador. Segundo a PNAD Contínua de 2024, mais de 65% dos estudantes universitários brasileiros também trabalham. Jovens que madrugam para cumprir suas funções, estudam à noite e carregam nas costas o peso de um país que, muitas vezes, não reconhece seus esforços. Por isso, nossa luta não é abstrata: é concreta, cotidiana, enraizada nas experiências vividas da juventude que sonha com uma sociedade mais justa.

O Plebiscito Popular se apresenta, assim, como um momento de escuta da população, elaboração coletiva e fortalecimento da compreensão de que as transformações concretas da sociedade exigem participação ativa da população. Cada conversa na fila do mercado, no ponto de ônibus, cada voto conquistado, cada debate realizado sobre os objetivos do plebiscito, os diálogos realizados neste processo carregam a potência de plantar sementes de mudança e fortalecem o compromisso coletivo com o bem comum.

Como escreveu Paulo Freire, “é caminhando que se faz o caminho”. E é exatamente esse o espírito do plebiscito: mais do que apontar respostas imediatas, ele convoca cada brasileiro e brasileira a refletir, a dialogar e a se engajar na construção de um futuro no qual os direitos da classe trabalhadora não sejam exceção, mas regra. Sigamos firmes, com a convicção de que, quando o povo se levanta e assume o protagonismo da história, nenhuma estrutura de opressão permanece intocável.

*Pedro Lucas é diretor de Relações Internacionais da UNE.