Secretário-Geral e 3ª Vice-Presidenta da UNE, Gabryel Henrici e Clara Delmonte, falam sobre ameaça iminente à maior universidade do país e sobre a destruição das instituições de ensino brasileiras como projeto político do governo. Leia:

Exatos dois anos após os estudantes ocuparem as ruas em massivos atos por todo Brasil, no que ficou conhecido como “Tsunami da Educação”, cá estamos novamente. Se em 2019 a situação já era alarmante, para 2021 o orçamento discricionário aprovado pela Lei Orçamentária para a UFRJ é 38% do orçamento empenhado em 2012, e igual ao orçamento de 2008, quando a universidade tinha 34 mil estudantes de graduação, 42% a menos do que se tem hoje. Quando somado o bloqueio de 18,4% do orçamento aprovado, o funcionamento da maior universidade do Brasil fica inviabilizado, como anunciado pela Reitoria da Universidade no último dia 6. Em contrapartida, o mesmo governo que corta e bloqueia investimento das universidades destinou durante a pandemia mais de R$ 1 trilhão para os os bancos, gastou R$ 15,6 milhões com leite condensado e criou um orçamento “secreto” na casa dos R$ 3 Bilhões para aprovar leis anti-povo.

A destruição das universidades enquanto projeto se evidencia quando há menos de um mês a UFRJ viveu o quarto grande incêndio em seis anos – Reitoria, Residência Estudantil, Museu Nacional e Reitoria novamente. Ou seja, em média a cada 18 meses, a universidade pegou fogo uma vez. Esse é o retrato de um projeto de sucateamento da educação pública que não começou no Governo Bolsonaro. Mas por que então 2021 prevê um cenário ainda pior do que todos os anos anteriores, não só para a UFRJ mas para todas as IFES brasileiras?

Não há dúvidas de que Bolsonaro elegeu as universidades e o movimento estudantil como inimigos, desde antes de sua eleição. Isso porque encontrou no projeto ultraneoliberal, que já estava em curso, um aliado para o seu projeto de cunho neofascista, que busca combater, através de uma guerra cultural embasada no negacionismo, todos aqueles que pensam diferente e produzem conhecimento crítico. Guiado por esse projeto, opera não apenas sucessivos cortes, mas também ataques à autonomia universitária – já são mais de 20 Instituições Federais de Ensino que tiveram a escolha de seus dirigentes por parte da comunidade acadêmica desrespeitada pelo Governo Federal, e perseguição aos movimentos sociais da educação, em especial às entidades estudantis.

Outro motivo pelo qual o momento atual é tão duro para as universidades tem a ver diretamente com a sobreposição de crises que nos atingem hoje. São quase 430 mil vidas perdidas pelo COVID-19 no Brasil, e no momento em que esse texto é escrito eclodem notícias vindas da CPI do Senado que comprovam a responsabilidade de Bolsonaro e seus aliados sobre o genocídio em curso. Também no dia em que esse texto é escrito, completa-se uma semana da maior chacina da história do Rio de Janeiro, a do Jacarezinho, com 25 jovens negros assassinados pela polícia civil, política da qual Bolsonaro e seus aliados são co-responsáveis. Junto a isso, a fome volta com força para a mesa dos brasileiros, a redução do poder de compra de itens básicos, o aumento das tarifas de transporte e os altíssimos índices de desemprego massacram os trabalhadores e a juventude. E ora, se entendemos que as universidades também são feitas por esse povo que está morrendo ou vendo seus familiares morrerem de COVID-19, bala e fome, em especial quando falamos dos trabalhadores terceirizados e estudantes, entendemos como tudo isso as afeta diretamente.

Esse então deveria ser o momento, sobretudo, do fortalecimento das políticas de permanência estudantil com mais orçamento, pois os estudantes universitários são, cada vez mais, pertencentes às classes mais populares e impactados por essa deterioração das condições de vida. Ao mesmo tempo, as universidades públicas já provaram dezenas de vezes o quão grandiosas podem ser, quando estão à serviço do povo no enfrentamento aos dilemas sociais que se apresentam, ainda mais durante a pandemia. São inúmeras as contribuições no enfrentamento à COVID-19, seja através da produção de vacinas, equipamentos, testes e dos próprios hospitais universitários. É indiscutível a necessidade de serem propiciadas condições estruturais e pedagógicas para ser possível refletir sobre um retorno presencial seguro – não há espaço para não haver verba suficiente para comprar sabonete e álcool em gel para os banheiros, salas pequenas sem condições de ventilação e tantas outras realidades que já viviam as universidades públicas antes da pandemia. E pra tudo isso, é preciso que haja verba emergencial destinada às universidades, e não o cortes, como vem operando o presidente.

É inegável o quanto Bolsonaro é protagonista no anúncio de que a maior universidade do Brasil terá de fechar as portas em julho. Logo, não há saída para salvar a UFRJ e as demais Universidades que não passe pela sua derrota, e os estudantes brasileiros sabem disso. Como dito no início, há dois anos fomos milhões ocupando as ruas em todo país, fizemos da luta contra os cortes uma luta de todo o povo, e com isso, obrigamos Bolsonaro a recuar. Dessa vez, mesmo com as restrições impostas pela pandemia, não recuaremos e iremos às ruas! Com medo das manifestações, o MEC anunciou a liberação de parte da verba que estava bloqueada, mas isso não chega nem perto de resolver o problema. É hora de nos inspirarmos naqueles e naquelas que ocuparam praças com seus grupos de pesquisa, extensão, ainda em 2019, prestando serviços e dialogando com a população sobre suas produções acadêmicas, e nos massivos atos que tiraram o sono de Bolsonaro e seus aliados na época. É hora de voltar, com segurança, a ocupar as ruas na luta em defesa da educação, pela reversão imediata dos cortes nas IFES, e pelo Fora Bolsonaro. A UFRJ não vai fechar, nós não vamos permitir!

*Clara Delmonte é estudante de Gestão Pública na UFRJ, 3ª Vice Presidente da UNE e ex diretora do DCE Mário Prata UFRJ.
*Gabryel Henrici é estudante de História na UFRJ, Secretário Geral da UNE e ex diretor do DCE Mário Prata UFRJ.