Diretor de Combate ao Racismo da UNE, Natan Ferreira, fala em artigo sobre luta dos estudantes negros durante quarentena para continuar estudando

Historicamente a universidade foi tida como um espaço exclusivo para os mais ricos, os detentores das grandes fortunas, consequentemente os brancos. Por isso o movimento estudantil sempre esteve em luta para que tivéssemos uma democratização do acesso à universidade.

E a desigualdade vem de bem antes da universidade. Dados do IBGE, que incluem informações sobre taxas de acesso desde a educação infantil até o ensino superior, mostram que os adolescentes de 15 a 17 anos brancos apresentam taxas de abandono e reprovação escolar mais baixas que os pretos ou pardos.

Há 17 anos conquistamos as cotas raciais e sociais nas universidades públicas, uma luta árdua que exigiu muita dedicação e empenho. Paralelo às cotas tivemos a conquistas de programas importantes como o Prouni e Fies que permitem que estudantes mais pobres possam entrar nas universidades privadas.

Hoje nós temos uma universidade mais diversa, com negros e negras, mulheres e LGBTs, produzindo pesquisas e conhecimento referenciado, avançando na produção de conteúdo voltado ao povo negro e na superação das desigualdades históricas. Mas infelizmente a cada dia que passa vemos esses direitos conquistados cada vez mais ameaçados, com o atual governo Bolsonaro.

Os ataques à democracia das universidades, a retirada de recursos em setores importantes da universidade como da assistência estudantil, tem feito que nesse período de pandemia os estudantes mais pobres, da maioria negra acabe enfrentando muitas dificuldades para conseguir dar continuidade ao seu curso com o ensino remoto. Por falta de recursos básicos como acesso à internet ou mesmo a capacidade de poder se manter apenas estudando.

Cerca de 30% dos municípios brasileiros não contam com uma rede de conexão de internet de alta capacidade. Desses, 53% estão localizados no Norte e Nordeste, regiões que reúnem a maioria das populações negras e indígenas do país.

Em decorrência de todos esses entraves estima-se que a evasão no ensino superior do ano de 2020 seja de 35%.
Na rede privada mais de 600 mil estudantes acabaram evadindo a universidade por dificuldades financeiras. Muitos deles oriundos do PROUNI e bolsistas parcial. Segundo projeções o sindicato das entidades de ensino superior privado do Estado de São Paulo a pandemia do novo coronavírus deve contribuir para elevar a taxa de evasão no ensino superior para 34,1%.

A luta da juventude negra é gigante, nós queremos continuar acessando o espaço da universidade que por muito tempo nos foram negados, essa é uma reparação histórica, não iremos aceitar manobras que distanciem ainda mais a presença do nosso povo negro no ensino superior. São milhares de sonhos, junto com um estudante negro ele carrega consigo a esperança dos seus familiares que ver nele uma perspectiva de futuro e ascensão social.

Estamos vigilantes para que a universidade siga se pintando de povo!

*Natan Ferreira é diretor de Combate ao Racismo da UNE.