Diretoras de Mulheres da UNE e da UBES falam sobre as lutas atuais das estudantes frente ao governo e o obscurantismo. Leia o artigo:
A história da luta feminista sempre esteve profundamente arraigada à luta das mulheres estudantes e do movimento estudantil, articulada à intervenção política das mulheres sindicalistas, de esquerda e trabalhadoras do campo e das cidades, às experiências de auto-organização das mulheres indígenas, quilombolas e negras.
Neste 8 não seria diferente, e as estudantes tem um importante desafio: a tarefa de derrotar nas ruas e nas urnas a política neoliberal e genocida de Jair Bolsonaro, e também organizar a resistência feminista nas universidades e nas escolas! E demos o recado no último período: no 9º EME da UNE, Resistindo para Transformar: em defesa da Vida e por #ForaBolsonaro, nas mobilizações do Bolsonaro Nunca Mais, que organizaram mulheres por todo país dia 4 de dezembro de 2021, nas mobilizações e pressões para a aprovação do PL da dignidade menstrual, que foi vetada por Bolsonaro, mas que seguimos pressionando em articulação, mobilizadas para garantir segurança menstrual pras mulheres e meninas de todo o Brasil! E também na resistência da construção dos últimos anos no 8 de março durante a pandemia, que tivemos que nos reinventar na luta, nas ruas e redes, e também na solidariedade entre nós. Construímos campanhas de solidariedade de norte a sul, pois a solidariedade é o que organiza e movimenta nossa luta feminista!
Os novos cortes orçamentários de -12% do orçamento para as universidades públicas em 2022 escancara mais uma vez o projeto de destruição do nosso país: sucatear a principal ferramenta de emancipação, capaz de forjar sujeitos capazes de organizar a transformação social que queremos no Brasil. Bolsonaro elegeu a educação e a luta social como suas principais inimigas em seu governo. Esse corte representa um esvaziamento das verbas para a manutenção das universidades, iluminação e segurança nos campus, limpeza e assistência estudantil, o que compromete o pleno funcionamento das creches universitárias, do RUs, e as bolsas para estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Neste 8 de março, nossas lutas são também pela recomposição do orçamento das universidades!
A desigualdade de gênero também perpassa na vida escolar das nossas meninas, o último dado de 2018 revela que há mais de 1,7 milhão de meninas e mulheres de 15 a 29 anos que não completaram o ensino médio. Esse dado nos alerta para um assunto persistente, a vida das nossas meninas. Com a grave crise sanitária e econômica, muitas tiveram que abandonar a escola para ajudar com as despesas da família e outras acabaram se sobrecarregando com as atividades domésticas do cuidado.
A chegada da pandemia também desencadeou problemáticas urgentes a serem enfrentadas, a violência doméstica. Os lares das nossas mulheres e meninas viraram um local hostil, um local perigoso, os casos dobraram durante esse período e precisamos mais que nunca falar sobre abusos, violências, mas também sobre denúncia! Existem meios seguros que necessitam ser publicizados.
Por isso, construir as calouradas e coletivos feministas nas universidades e nas escolas, para fazer o debate e organizar a mulherada para lutar por uma universidade, escola e educação que queremos é nossa tarefa principal nas instituições de ensino neste ano! Sem machismo, sem assédio, sem racismo, sem LGBTfobia, sem os cortes orçamentários que Bolsonaro vem organizando na educação e ciência públicas! Com acesso à assistência estudantil para as estudantes, em defesa das cotas que democratizam as universidades e pintam a academia e a ciência de povo, com acesso às creches universitárias, moradia estudantil, restaurantes universitários, transporte público de qualidade e seguro, e principalmente, um retorno seguro às salas de aula, porque sabemos que em caso de adoecimento, o trabalho do cuidado redobrado recai sobre as mulheres.
Foi nesse contexto de adoecimento e precarização das nossas vidas durante a pandemia, com desemprego, sobrecarga do trabalho do cuidado das pessoas e da casa, alta da inflação e insegurança alimentar e menstrual, que estiveram as estudantes brasileiras nos últimos 2 anos nessa dinâmica de ensino remoto. Sem acesso a computador, internet e condições de continuar estudando com qualidade e todos os acessos que demanda o ensino a distância (EaD).
É também nossa tarefa construir este 8 de março nas redes e nas ruas, “Pela Vida das Mulheres: Bolsonaro Nunca Mais! Por um Brasil sem machismo, racismo e fome!” Disputar e encantar as jovens para feminismo, sem nos esquecer quem foram as mulheres que trilharam caminhos para que hoje estivéssemos nas universidades, na ciência, na política e na vida pública como um todo, para construir um outro mundo, e assim, mudar a vida das mulheres!
Resgatando o #EleNão em 2018, as mulheres foram vanguardas no processo de denúncia contra Bolsonaro mesmo antes de ele ser eleito. Fomos as primeiras a ir às ruas denunciar e alertar o conjunto da população do que Bolsonaro representa, alertando seu projeto de morte para o Brasil. Mal sabíamos que o avanço do capital sobre os territórios resultaria em uma pandemia que levaria mais de 650mil vidas de brasleiras e brasileiros, resultado da política de Bolsonaro e seu governo, que se aliariam ao vírus pra promover um verdadeiro genocídio. Negacionista, atrasou a vacinação para articular um esquema de corrupção na compra de vacinas para faturar $1 dólar por cada dose aplicada, para esse genocida, o dólar literalmente vale mais que a vida do nosso povo!
Além de derrotar Bolsonaro e o Bolsonarismo, precisamos ter no nosso horizonte que nossa resistência cotidiana é para semear outro mundo possível, estabelecer a cada dia outras relações que reforcem nossos laços de solidariedade e de coletividade, em que a sustentabilidade da vida seja o centro da economia, desde as bases, desde as salas de aula, as comunidades, ruas e roçados, a partir das experiências de resistência e dos saberes que as mulheres vêm construindo em seus territórios.
Derrotar Bolsonaro para nós, significa ainda, derrotar o projeto neoliberal e cartilha do mercado que Bolsonaro e seu governo vem seguindo à risca e confiam a economia e os rumos do nosso país, resultando no desastre econômico, político, sanitário e social durante a pandemia. Neste sistema, a educação, as mulheres, seus corpos, trabalho e vida são mercadorias. Por isso, neste 8, as mulheres estudantes querem derrotar Bolsonaro e reconstruir os rumos da educação e do Brasil livre das amarras do neoliberalismo, queremos um Brasil sem machismo, sem racismo e sem fome! Bolsonaro NUNCA mais!
*Carol Azevedo é diretora de Mulheres da UNE, estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
* Pâmela Layla é diretora de Mulheres da UBES e Técnica em Informática pelo IFCE.
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