Painel com presença dos deputados federais Orlando Silva e Tulio Gadêlha, a vereadora do Recife Kari Santos e o comunicador Gustavo Gaiofato trouxe reflexões e alternativas ao domínio das Big Techs

A 14ª Bienal da UNE iniciou a manhã desta quinta-feira (30) com tudo. Depois da abertura repleta de energia e arte na noite anterior, foi dada a largada para a série de painéis com temas e pessoas representativas no debate brasileiro. E, se tem um assunto com relevância hoje na vida das pessoas, é a relação com as redes sociais e como elas tomaram um lugar central no debate público em um tempo contaminado por fake news e disseminação do discurso de ódio.

Para refletir e buscar alternativas, a Bienal convidou os deputados federais Orlando Silva (PC do B) e Tulio Gadêlha (Rede), a vereadora do Recife Kari Santos (PT) e o comunicador Gustavo Gaiofato, que compuseram a mesa ‘Internet, liberdade de imprensa e redes no Brasil’, realizada para um auditório cheio.

“Temos que valorizar a importância das redes sociais, acredito ser importante ter acesso a essa ferramenta”, afirmou Orlando. Kari reforça que é preciso ocupar esses espaços e deu exemplo de sua campanha em que ela afirma que as redes sociais deram certo se referindo a sua votação expressiva em 2024. “Apesar de entender que existe um lado que é impulsionado pelas redes sociais, precisamos estar nelas para combater a desinformação e não deixar só um lado falando”.

Mas esse ambiente ainda é dominado pela extrema direita, aponta Tulio Gadêlha: “Para cada progressista eleito usando as redes, há vários de extrema direita”. Para o deputado, uma questão essencial é a falta de transparência das empresas sobre os algoritmos que usam. Orlando Silva apontou na mesma direção: “A sociedade brasileira precisa poder entender os algoritmos e sua dinâmica para questionar e ter meios de garantir que haja diversidade e pluralismo. A transparência é um fundamento muito importante para a regulação das redes sociais”.

Deputado Orlando Silva / Foto: Maiakovski Pinheiro

Gustavo Gaiofato vai além na análise. Para ele, é necessário mais que uma regulação das empresas que dominam essa tecnologia: “A gente é refém dessas plataformas porque não tem um projeto alternativo que possa criar uma autonomia para além do marco jurídico”. Para ele a questão precisa incluir investimento e um projeto que retire o Brasil da condição de capitalismo dependente, sendo capaz de criar tecnologia.

Soberania digital

Em tempos em que se cristaliza uma economia da informação, para falar em liberdade é preciso incluir a questão da posse e gestão de dados. “Não há solução para enfrentarmos os dilemas trazidos pelas redes se o Brasil não tiver soberania tecnológica, se nossos dados dos brasileiros não forem mantidos no país, se não tivermos capacidade de produzir esses aplicativos no Brasil”, avisa Orlando Silva.  Ele lembrou que a maioria das empresas são dos Estados Unidos e operam para atender os interesses de lá, do Estado e do departamento de segurança deles.

“Essa ferramenta não é nossa. Precisamos nos organizar e construir lutas com outras ferramentas”, argumentou Mona Rodrigues, do DCE da Universidade de Brasília (UnB), uma das estudantes que pediram a fala durante o debate. Também da UnB, Anna Matos, presidente institucional do DA de comunicação da UNB lembrou que o Google gastou milhões contra o projeto de lei 2630, o PL das fake news. A empresa chegou a manter em seu site uma mensagem contra o projeto de lei, que tramita desde 2020 no Congresso, onde se encontra parado.

Gaiofato usou como exemplo o fato de que cerca de 40% das faculdades brasileiras usam serviços de empresas como Meta e Google, que com isso têm acesso a informações importantes de pesquisa e mesmo de atividades de professores, estudantes, pesquisadores. Gadêlha reforçou: “quando q gente fala de ‘nuvem’, essa nuvem são HDs que se encontram em um território, e essas big techs armazenam em um território só (EUA)”. Para ele, o Brasil precisa ser um país soberano digitalmente, pois nossos dados hoje não estão nas mãos dos brasileiros, mas nas mãos das big techs.

Foto: Maiakovski Pinheiro

A rua é nosso palco principal

Diante de tal desafio, uma outro caminho, além de ocupar o espaço das redes sociais, foi apontado por Eve Oliveira, diretor de políticas educacionais da UNE e estudante da UFRGS: “A alternativa é construir uma imprensa popular. Temos que garantir que a disputa de ideias aconteça principalmente nas ruas”, disse.

Para o deputado Orlando Silva, é necessário também a inclusão da educação digital no programa de escolas e faculdades, para que a população tenha ferramentas de pensamento crítico para lidar com o que Tulio Gadêlha chamou de “colonização de mentes”. Hector Batista, diretor da UEE SP, classificou o tema como um dos temas mais importantes da nossa época: “Não existe mais o debate sobre democracia sem o debate da regulamentação das redes”.

Na opinião da mesa garantir a presença progressista nas redes é urgente e necessário, já que esse campo político chegou atrasado nessas plataformas, que pendem para o outro lado do espectro, outro caminho se mostra essencial: organização e ocupação das ruas, para não perder essa disputa.

Por Felipe Mendes