Gutemberg Rodrigues, baiano criado no Rio de Janeiro, quer ampliar o diálogo do movimento estudantil com a sociedade
O novo vice-presidente da UNE, Gutemberg Rodrigues, tem 26 anos e é estudante de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Nascido em Remanso (BA) e criado no Rio de Janeiro, ele já foi jogador de futebol profissional e entrou no movimento estudantil por meio das atléticas. A paixão pela luta coletiva surgiu com o “tsunami da educação”, os protestos que levaram milhões às ruas contra os cortes de Bolsonaro nas universidades.
Da época de atleta, manteve o gosto pela prática de exercícios, que hoje concilia com sua pesquisa sobre o sistema carcerário brasileiro e a participação em atividades das entidades estudantis.
Hoje, à frente de uma entidade que representa mais de 10 milhões de estudantes, ele afirma querer construir uma UNE capaz de acolher os diferentes anseios da juventude brasileira. “Saí do interior para viver em uma capital e percebi como a realidade do ensino no meu estado era muito distinta da que encontrei aqui. O fato de o Brasil ser um país continental e tão desigual me motiva a lutar pela educação. Quando conheci de perto o movimento estudantil, estar na UNE se tornou um sonho realizado”, afirma.
Filho único criado pela mãe na Ilha do Governador (RJ), Gutemberg viveu até os 13 anos na Bahia e cresceu assistindo pela parabólica ao campeonato paulista de futebol pela televisão, influência que o tornou torcedor do Palmeiras.
Bolsista em escola particular, conta que escolheu o curso de História inspirado por bons professores e pelo momento da conjuntura política, o golpe que tirou a presidenta Dilma Roussef do poder. Após breve passagem pela Universidade Veiga de Almeida, transferiu-se para a UERJ, onde participou da refundação da atlética de seu curso. “Se no passado as atléticas serviram de instrumento para desmobilizar as entidades estudantis, hoje elas são aliadas e estão, em sua maioria, junto com os Centros Acadêmicos mobilizando universitários”, defende.

Plano de assistência estudantil para as estaduais
Gutemberg passou a construir o Centro Acadêmico em 2021, época da pandemia. Depois, passou a fazer parte do DCE da UERJ, em um momento difícil de adequação ao ensino retomo emergencial. “Houve um grande debate sobre a questão da assistência estudantil para que os estudantes pudessem ter aulas remotas entendendo que nem todo mundo tinha igualdade de condições para isso”.
A UERJ é pioneira nas cotas no país e sempre um exemplo em ações de permanência estudantil como o auxílio para alunos em vulnerabilidade que ele próprio chegou a receber durante a pandemia, com bolsa, tablet, e alimentação.
Apesar das experiências exitosas e o debate vivo em torno dos programas de permanência a estadual fluminense assim como outras estaduais pelo país, cresceram ao longo dos anos, ampliaram as vagas, campis e os recursos públicos ficaram insuficientes.
“Seria muito importante a gente debater nesse próximo ciclo, um plano de assistência estudantil para as estaduais. Os cotistas hoje estão amparados, mas os demais auxílios como transporte, alimentação e material didático não estão previstos em lei, então todo ano temos que brigar e fazer essa defesa na lei orçamentária do ano seguinte”.

As lutas de hoje
Para Gutemberg, o tarifaço de Trump levou a juventude a recalcular suas bandeiras. Sem deixar de lado o orçamento das universidades, o movimento estudantil voltou a priorizar a defesa da democracia e da soberania nacional.
“Isso mostrou para a UNE que o principal desafio do próximo ciclo é a eleição de um projeto democrático. E não existe caminho para a soberania nacional sem mais investimento em educação”, afirma.
Segundo ele, a UNE e os movimentos sociais precisam empurrar o governo para uma posição mais à esquerda, com foco na educação. Ele acredita que existe uma janela de oportunidade para que as lutas estudantis ultrapassem os muros da universidade e dialoguem com a sociedade.
Com a extrema direita em evidência, a classe estudantil, que é em grande parte filha da classe trabalhadora, tem maior capacidade de mobilização em defesa do ensino público.
“É uma oportunidade para ampliar o debate: falar do orçamento das universidades, mas também da escala 6×1, da isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil. Precisamos dialogar com estudantes que estudam e trabalham, e também com suas famílias.”
Para ele, a UNE pode aproveitar o momento para articular uma agenda de lutas mais ampla, conectando estudantes a outros setores e fortalecendo a participação popular nas decisões políticas.
Evasão zero e novos desafios
Gutemberg destaca como legado da última gestão a renovação da Lei de Cotas e a do Pnaes, mas afirma que o próximo passo é garantir “evasão zero”.
“Conseguimos ampliar o acesso da classe trabalhadora ao ensino superior. Agora, precisamos assegurar que nenhum estudante tenha que abandonar os estudos por dificuldades financeiras. Muitas instituições ainda não têm bandejão ou transporte acessível”, aponta.
Ele também defende mudanças nos currículos universitários, uma nova legislação para estágios e a abertura do debate sobre inteligência artificial. “A universidade não pode estar a reboque das transformações do capitalismo sem reflexão, mas também precisa se adequar à nova realidade”, afirma.
