A pandemia do Coronavírus surge num contexto de crise econômica mundial. Tal crise já demonstrava a desestabilização econômica, mas também na política e social. Consequentemente agravando problemas sociais, ambientais e sanitários que afetam diretamente nossas vidas.

Na realidade brasileira, denunciamos, desde o governo golpista de Michel Temer, o projeto de morte para as classes populares que ganha ênfase com a eleição do neofascista Jair Messias Bolsonaro. O desmonte do Estado, dos direitos sociais e os fortes ataques às liberdades democráticas tem colocado em jogo a vida de milhares de trabalhadores. Tendo em vista a característica racista e patriarcal na formação da classe trabalhadora brasileira, as pessoas que vivem nas periferias, negros e negras, mulheres e LGBT estão suscetíveis de uma maneira peculiar nesta crise.

No caso da população LGBT, por exemplo, registramos 1 morte por LGBTfobia a cada 23 horas em 2019, segundo o Grupo Gay da Bahia, sendo estas mortes através de homicídio e/ou suicídio. O agravamento da crise econômica e o avanço do conservadorismo tem se traduzido na falta de oportunidades de ingresso no mercado de trabalho, no acesso no Ensino Superior, na baixa representatividade nos espaços institucionais, no estigma em torno do acesso à saúde pública, a falta de apoio familiar, elementos que acabam estimulando o adoecimento físico e mental de LGBTs.

Neste momento, é necessário que o movimento estudantil, que historicamente lutou pelo respeito à diversidade sexual e de gênero se coloque diante de uma questão fundamental: como está a vida dos milhões de LGBTs brasileiros durante isolamento social, que busca conter a alastramento da pandemia do Coronavírus? Em especial, como está a vida de milhares de LGBT estudantes que, diante da suspensão das suas aulas, precisam se confinar em “repúblicas” ou retornar para os lares das suas famílias que não acolhem a sua orientação sexual e a sua identidade de gênero?

Vivemos uma Crise Sanitária mundial que coloca em outdoor as políticas neoliberais e suas consequências de falta de investimentos na Saúde Pública e outras políticas com a de Assistência Social e Previdência. No Brasil, caso não sejam tomadas medidas emergenciais como a revogação da Emenda Constitucional 95 que congela os gastos públicos por até 20 anos, colocando um tetos de gastos, ou a taxação das grandes fortunas, o Sistema Único de Saúde poderá entrar em colapso devido o grande número de infectados por Covid-19. E das poucas certezas que temos nesse momento, uma delas é que não podemos combater esse vírus sem um bom investimento na máquina pública. Para isso, é urgente lutar para taxar as grandes fortunas como forma de repensar o injusto modelo tributário de nosso país.

A ausência de ações contundentes do governo Jair Bolsonaro para enfrentar a crise econômica e sanitária no país tem amedrontado a vida dos mais pobres e daqueles/as que dependem diretamente do Estado. Este é o caso, por exemplo, das pessoas em situação de rua, encarcerados, comunidades indígenas e tradicionais. A pandemia de coronavírus também expõe que a negligência contra determinados grupos pode ser letal, em especial as pessoas que são portadoras de doenças autoimunes. No caso da população LGBT, existe um certo temor sobre o funcionamento de serviços de apoio como os de saúde especializados, abrigos, assistência social etc. No âmbito da saúde, destacamos ainda a necessidade de socialização de informações e manutenção dos serviços de enfrentamento das diversas infecções sexualmente transmissíveis, dentre estas o HIV. No campo da saúde mental é necessário se atentar para os possíveis desgastes que o retorno aos lares podem gerar para as pessoas LGBT. A não aceitação em casa e na família se constitui como um elemento que reforça a solidão, o desamparo e as angústias próprias da vida das pessoas LGBT. Por isso, é fundamental estimular que a população LGBT acesse o benefício emergencial (renda básica). Para defender a vida da população LGBT é necessário a luta por direitos no campo da saúde, do trabalho e renda, do lazer e da cultura, da assistência social.

Além disso, a necessidade de estar em isolamento social e questões econômicas nesse período somos desafiados a enfrentar muitas questões, de opressão e violência. Já temos muitas pesquisas sobre o aumento da violência doméstica contra mulheres, e de abusos sexuais entre crianças e adolescentes. E queremos colocar a luz também questões sobre a segurança física e a saúde mental da população LGBT. Devemos continuar exigindo ações do Estado, para que esse assegure condições de acesso aos nossos direitos, principalmente assistência psicológica e outros serviços essenciais na rede sócio-assistencial durante essa crise. Combinado com a luta por assistência estudantil, como a garantia de Restaurantes Universitários as Casas de Estudantes, acesso ao Auxílio Emergencial e o acesso à cultura nesse período de crise são essenciais para nossa sobrevivência.

Apontamos ainda que a saída está na organização coletiva, na coletividade e nas ações de solidariedade. O momento exige que pensemos na proteção em todos âmbitos das vidas LGBTs, é passada a hora de levantarmos uns aos outros! Não queremos mais nenhum trabalhador sem renda, nenhuma mulher sendo violentada, nenhum preto sem justiça social e nenhum LGBT de volta pro armário! Nos queremos vivos, unidos e organizados para combater o Covid-19, e depois dar passos na construção de um Projeto Popular para o Brasil, que combine saídas e reformas econômicas, com a construção de valores diferentes dos atuais, entre eles, a solidariedade!

*Lucas Gertz Monteiro é 2º Diretor LGBT da União Nacional dos Estudantes.