Leia artigo da diretora de Meio Ambiente da UNE, Renata Moara, sobre as alterações climáticas:

Nos últimos meses temos acompanhado de perto as consequências das mudanças climáticas. Onde seria inverno tivemos recorde de temperaturas elevadas, diversos estados viveram momentos críticos de fortes chuvas e destruição, como foi no Rio Grande do Sul, a seca no cerrado nunca esteve tão forte, o Amazonas também passa por uma seca que afeta principalmente os ribeirinhos. E nessa semana estamos passando pela maior onda de calor dos últimos anos, chegando até 5°C a mais do mesmo período do ano passado, esse calor durante esse período do ano é totalmente atípico e se explica, também, pelas mudanças climáticas globais.

Há décadas que o debate ambiental feito pelos movimentos indígena, social, ambiental, alertam para um colapso global causados pela ganância humana e exploração do planeta, marcas registradas do capitalismo. Ailton Krenak, ambientalista e líder indígena dos Krenak, escreve em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo” que:

 “Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: A Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza.”

Krenak mostra como a ideia de superioridade humana é trágica para todo o planeta, não há humanidade sem a natureza. Essa prerrogativa é ancestral, os povos indígenas há séculos nos ensinam que o respeito à mãe Terra é o que salvará nossas vidas. Contudo, o que vivemos hoje é um aceleramento do fim do mundo. O desmatamento, a mineração, garimpo ilegal, o avanço da soja, principalmente nos estados do Centro-Oeste, e no Pará, são causadores da ebulição global que vivemos, não atoa, Belém (PA) se tornará a segunda cidade mais quente do mundo ate 2050.

O Planeta pede socorro. Nós pedimos socorro. A exploração desenfreada dos recursos humanos e não humanos já mostrou o seu fracasso, e quem sofre diretamente com as consequências do capitalismo predatório são aqueles que historicamente vivem à margem dos direitos fundamentais. É a população mais pobre que sofre com o calor extremo, em casa, nas escolas públicas em sua maioria sucateadas, nos ônibus lotados, é necessário debater também o racismo ambiental que atravessa a população periférica nas cidades do Brasil. 

Davi Kopenawa Xamã e líder Yanomami nos alerta em “A queda do Céu”  que o “Povo da Mercadoria” é uma ameaça para a permanência da floresta e a sobrevivência dos povos.

Não é exagero dizer que a onda de calor vivida essa semana é apenas o começo daquilo que pode vir a ser o colapso ambiental da humanidade. Não há mais como adiar e nem secundarizar a urgência da centralidade das lutas ambientais. A demarcação das terras indígenas é imprescindível nessa luta, a luta por justiça climática, e principalmente o rompimento com o modus operandi de destruição do planeta, o capitalismo. Construir o ecossocialismo aliado com os saberes ancestrais é a unica alternativa para a sobrevivência da Terra. As visões de mundo Yanomami já nos diziam: a destruição das florestas acabará não apenas com ela, mas com todos nós.

*Renata Moara é estudante da UFOPA e Diretora de Meio Ambiente da UNE.