Coordenadora do CUCA da UNE Pernambuco, Pérola Negra, fala sobre a precarização do trabalho e produção cultural. Leia o artigo:
No último dia 15 de novembro de 2024, uma série de atos foi realizada em várias cidades do Brasil em protesto contra a jornada de trabalho 6×1. Composta por trabalhadores, sindicalistas e ativistas, a mobilização buscou denunciar as condições laborais associadas a esse regime, que se mostra insustentável, especialmente para profissionais da cultura. A jornada 6×1, que consiste em seis dias de trabalho seguidos por um dia de folga, remonta à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), promulgada em 1943, em um contexto de forte industrialização e urbanização. À época, a legislação buscava atender à crescente demanda por mão de obra cada vez com mais exploração nos setores de comércio, serviços e indústria. A escala foi adotada por sua suposta “flexibilidade”, permitindo que as empresas mantivessem operações contínuas.
No entanto, essa flexibilidade se transforma em desafio para o setor cultural, que requer um ambiente que favoreça a liberdade e a experimentação. O debate sobre as condições de trabalho no campo cultural é especialmente relevante em um contexto de crescente precarização laboral. Artistas, técnicos e outros profissionais lidam com jornadas extenuantes, instabilidade financeira e baixa valorização, comprometendo não apenas seu bem-estar, mas também a qualidade e a diversidade da produção cultural. A produção artística exige tempo e espaço para criar, planejar e experimentar, o que é impossibilitado pela escala 6×1.
Esse modelo de trabalho gera consequências diretas para os trabalhadores, como a redução do tempo para criação e inovação, dificultando o desenvolvimento de projetos pessoais e novas ideias. Adicionalmente, a sobrecarga emocional e física resultante da pressão constante para ser produtivo pode levar a problemas de saúde mental, como burnout e ansiedade, minando ainda mais a capacidade criativa dos profissionais.
Por dificuldades econômicas e socialmente, a necessidade de alinhamento às demandas do mercado, imposta pela falta de tempo e recursos, resulta em uma homogeneização da produção cultural. Os trabalhadores se veem forçados a escolher projetos com retorno financeiro imediato, em detrimento da criatividade e da expressividade artística. Como consequência, o público consumidor enfrenta uma redução no acesso a obras culturais mais complexas, uma vez que o aumento da produção voltada para o consumo rápido limita a diversidade de opções disponíveis. Essa predominância de produtos culturais padronizados diminui a formação cultural da sociedade, levando à perda de espaços de reflexão crítica e apreciação da diversidade.
A busca por jornadas de trabalho mais humanas e flexíveis é essencial para reverter essa situação. Modelos como a redução da carga para quatro dias de trabalho semanal ou uma distribuição mais equilibrada de horas podem proporcionar aos profissionais do setor cultural um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional, estimulando a criatividade. O fortalecimento de associações e coletivos culturais é crucial para promover melhorias nas condições de trabalho e lutar por uma legislação mais favorável. A união dos profissionais é fundamental para pressionar por mudanças que valorizem o tempo e a saúde dos trabalhadores.
Em suma, a escala 6×1, ao impor uma rotina desgastante, compromete não só a saúde dos trabalhadores culturais, mas também a própria essência da produção cultural no Brasil. É imprescindível reavaliar essa dinâmica, promovendo um ambiente onde a criatividade e a inovação possam florescer. Somente assim será possível garantir uma cultura rica, diversa e acessível a todos.
A participação do setor cultural no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil é uma métrica importante para entender o valor econômico da cultura no país. De acordo com dados do Sistema de Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor cultural representava aproximadamente 2,64% do PIB.
Com a abolição da escala 6×1 podem acontecer impactos significativos na economia brasileira, especialmente no aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Ao proporcionar melhores condições de trabalho, com jornadas mais flexíveis e humanas, abre-se espaço para um ambiente que favorece a criatividade, a inovação e a produtividade — elementos essenciais para a produção artística.
Com a implementação de jornadas que respeitem a necessidade de descanso e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, os trabalhadores culturais, que hoje representam cerca de 2,64% do PIB, poderão dedicar mais tempo e energia à criação de conteúdos originais e de maior qualidade. Isso, por sua vez, estimula o consumo de produtos culturais diversificados e promove o crescimento do mercado cultural interno, gerando maior arrecadação e circulação de recursos.
A cultura, assim como na vida, precisa de equilíbrio para florescer a criatividade. Por isso, defendemos uma escala justa e próspera para que exista uma vida para além do trabalho e que nessa vida seja repleta de arte.
*Pérola Negra é Coordenadora do CUCA da UNE Pernambuco.