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“Mulheres estudantes na luta pela educação”, por Paulinha Silva

08/03/2021 às 15:03, por Cristiane Tada.


Estudante da UEMG e integrante da diretoria de Mulheres da UNE fala como crise tem afetado vida das mulheres e a necessidade do impeachment de Bolsonaro para construir um Brasil feminista. Leia:

Há uma potência de mudança guardada entre nós mulheres que precisa ser cultivada. A história nos mostra como mulheres organizadas são uma força fundamental para provocar avanços sociais e conquista de direitos. Direitos, como por exemplo, o acesso ao ensino superior, os quais duramente conquistamos estão sendo arrancados devido à profunda crise do sistema capitalista-racista-patriarcal que nos assola.

Ainda no século XX, Simone Beauvoir já alertava que diante de uma crise econômica, social ou religiosa os direitos das mulheres são questionados. A atual crise econômica que vivemos, juntamente com a pandemia, gerou um aprofundamento da desigualdade social e aumento da precarização do trabalho. De acordo com o estudo CoronaChoque e Patriarcado realizado pelo instituto Tricontinental, ainda esse ano 47 milhões de mulheres e meninas serão levadas a pobreza extrema, e o número total de pessoas nessa situação chegará a 435 milhões em todo o mundo.

A pandemia expõe a necessidade de retomar e ampliar pautas importantes que nós, feministas, viemos debatendo há bastante tempo. Uma delas é a Divisão Sexual do Trabalho, que sobrecarrega mulheres por serem as principais responsáveis pelo serviço doméstico e de cuidados. Além de todo trampo que já desempenhávamos para a manutenção do lar e cuidado com a família, o isolamento social aumentou essa demanda. A pesquisa Sem parar: O trabalho e a vida das mulheres na pandemia, feita pela Sempre Viva Organização Feminista (SOF) aponta que 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia, dessas 52% são negras, 72% afirmam que aumentou a necessidade de monitoramento e companhia.

O mesmo estudo da SOF, mostra que 40% das mulheres participantes, sendo a maior parte negras, afirmam que a pandemia trouxe insegurança em relação ao sustento da casa, as dificuldades principais são para o pagamento do aluguel e contas básicas. Outro dado que chama atenção é que 58% das mulheres negras estão desempregadas. Devido ao racismo estrutural, historicamente a população negra ocupa menos postos de emprego. Percebemos então, que a pandemia também aprofundou a desigualdade racial que tanto serve ao capitalismo.

Com mais tarefas no lar, e menos condições de subsistência, as mulheres que são maioria no ensino superior estão com mais empecilhos para permanecerem na universidade. A SEMESP, entidade que reúne mantenedoras do ensino privado, diz que apenas no primeiro semestre de 2020, 608 mil estudantes evadiram de seus cursos. Com a redução do principal programa de financiamento estudantil, o FIES, nos últimos anos mais estudantes têm a obrigação de trabalhar para pagar pelos seus estudos. Como a taxa de desemprego está batendo o recorde de 14%, muitas e muitos jovens estão sem perspectivas de se formarem na faculdade.

Apesar da maior parte das matrículas do ensino superior estarem no setor privado, é importante ressaltar que educação não é mercadoria. Queremos que todas as pessoas tenham a oportunidade de estudarem em universidades públicas, onde se têm qualidade no ensino e produção científica. Por isso lutamos para serem ampliadas.

Por serem estratégicas para o desenvolvimento do país as instituições de ensino superior públicas são um forte alvo de ataques do governo Bolsonaro. É recorrente a intervenção nas reitorias. O governo nomeia para o cargo de reitor aquele candidato que não foi o mais votado, mas é alinhado ideologicamente com Bolsonaro seguindo a linha neofacista e neoliberal. Só em Minas Gerais já são quatro universidades sob intervenção (UFLA, UFTM, UFVJM e UNIFEI), e estima-se que em todo país há um total de vinte e uma universidades nessa situação, nas cinco regiões.

Novamente estamos enfrentando mais corte de verbas da educação. O governo está propondo reduzir 17,5% dos recursos para custeio das universidades e institutos federais, 18% do Programa Nacional de Assistência Estudantil e 7,5% do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Além desses cortes, no Projeto de Lei Orçamentária 2021, há recursos que estão condicionados a uma nova aprovação do legislativo. Tais propostas ameaçam a manutenção das universidades além de gerar impacto diretamente nas e nos estudantes de baixa renda que terão menos acesso a programas de permanência estudantil.

As universidades brasileiras têm um papel fundamental no combate a pandemia. Estão desenvolvendo pesquisas sobre a vacina, produzem equipamentos de proteção e atendem a população nos hospitais universitários. Por isso deveriam receber mais investimento e respeito pela autonomia universitária. Ao contrário disso, o governo Bolsonaro está comprometido com fake news, desinformação e obscurantismo. Enfraquecer a nossa produção científica reduz nossas possibilidades de desenvolvimento e soberania.

A crise não está próxima de acabar, mas isso não significa que devemos deixar de lutar. Contrapondo o obscurantismo podemos recorrer ao pensamento de Lélia Gonzales para iluminar nossos caminhos. Essa pensadora brasileira fundamental para entender nosso país, coloca que apesar de trazermos em nós as marcas da exploração e subordinação, carregamos toda potencialidade para construir a libertação de todas e todos. Mas para isso devemos nos organizar.

É urgente, pelo bem do Brasil, desgastar, isolar e derrotar o bolsonarismo. E nesse sentido nós mulheres estudantes temos muito no que contribuir. Primeiramente construindo as lutas pela educação, pois essa bandeira tem ampla capacidade de diálogo com a sociedade e é central para a juventude. Também é importante desenvolver campanhas de solidariedade, buscando caminhos para o povo passar por esse momento de forma mais digna e propiciando a organização popular.

O auxílio emergencial e a vacinação são pautas relevantes as quais também devemos nos dedicar. O auxílio é importante para combater à miséria e à fome. Já a vacina é o que vai nos permitir superar o corona vírus e o retorno seguro às aulas e demais atividades.

Para colocar fim ao projeto político de Bolsonaro, o qual se opõe ao desenvolvimento do Brasil, precisamos de muitas mãos. Devemos construir unidade de ação entre movimentos feministas, sociais, estudantis e demais organizações para que no seio dessa articulação seja formulado e debatido amplamente com a sociedade um projeto de país voltado para a felicidade da nação, para o bem viver, para desenvolvimento e soberania nacional. Onde todas e todos possam se alimentar, trabalhar, estudar, morar e ter lazer com dignidade.

Nós mulheres somos responsáveis pela manutenção da vida e não aceitamos pagar a conta da crise. Exigimos o impeachment desse governo que nunca demostrou o menor compromisso por essa nação e nos colocamos no front para a construção de um projeto popular, feminista e antirracista para o Brasil.

*Paulinha Silva é estudante da Universidade do Estado de Minas Gerais e compõe a Diretoria de Mulheres da UNE. 

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