Textos selecionados para 13ª Bienal da UNE mostram habilidade em transformar realidades difíceis com morte, questões de gênero, mazelas sociais, religiosidade, por exemplo, em erudição
A mostra de trabalhos selecionados de Literatura da 13ª Bienal da UNE compõe um mosaico recheado de temas e histórias por horas triste da juventude brasileira, mas também cheia de lirismo e catarse artística. Uma mocidade que transforma dor em poesia, que faz ode as antigas gerações e não enaltece de onde veio. Raízes e origem, preocupações com o meio-ambiente, morte, questões de gênero, mazelas sociais, religiosidade e também amor são temas recorrentes.
O coordenador da Mostra Selecionada Marcelo Correia afirma que a curadoria lidou com uma diversidade grande de trabalhos recebidos de diferentes regiões do país. Quanto ao conteúdo, nesta edição os trabalhos deveriam se encaixar núcleos temáticos, sendo eles: ancestralidades, fé, afetos, diversidades e territórios.
“Temos textos incríveis que trazem muito a questão da ancestralidade, da territorialidade e do afeto. São os eixos que acabaram aparecendo mais. Muito também sobre as religiões de matriz africanas, sobre os povos originários, sobre questões que é sempre importante retornar como as mulheres e LGBTs”, destaca.
Os textos selecionados serão apresentados em um sarau de Literatura, na Laje Pixinguinha da Fundição Progresso, no segundo dia do festival, quinta-feira, dia 03 de fevereiro das 17h às 19h.
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Baseado em histórias reais
O trabalho selecionado da artista e mestranda de Artes e Design (UFBA) Zulmira Alves Correia chamado Memória- Umbigo é uma experimentação artística representada por um texto poético, que se estrutura através do conceito de um cordão umbilical enterrado, tradição realizada quando nasce alguém em sua cidade natal, Crato no Ceará.
“É uma tradição da área rural, onde ainda resido. O texto traz, portanto, memórias desse espaço. Cordão umbilical é matéria e nutrição, eu penso que parte de mim nutre e é nutrida pela terra… partícula e semente. Memória-umbigo é um projeto em andamento, sobre memórias maternas, de lugar, de terra, do feminino… é um projeto em gestação, e fico muito contente de ter uma partícula dele na Bienal”, afirmou a artista.
O trabalho selecionado do professor de história e estudante de Letras da Universidade Federal de Campina Grande, Higor Porfírio de Oliveira é intitulado Oração.
O poema marginal veio de uma inspiração de uma conversa com um aluno da escola, em que ele quis retratar a realidade de um jovem periférico.
“Escuto história de alunos todos os dias, e esse em especial é um dos que mais gosto de conversar porque temos uma realidade parecida de onde eu saí. É uma poesia que retrata violência e abandono paterno e eu faço uma oração deturpada para poder exemplificar o que acontece na vida desse garoto periférico e de vários outros desse Brasil”, explica.
Leia um fragmento de Memória-umbigo, de Zulmira Alves Correia:
‘Onde seu umbigo é enterrado, você não esquece’ Por isso nunca vou embora. Me cobrir de terra também é manto. Me enterrar, deixar o cordão umbilical maturando me lembra o processo de gestação, diria até uma segunda gestação: a primeira foi no útero de mainha, a segunda é na terra. Mainha me levou nove meses, a terra me leva para a eternidade… Comecei meus sonhos de premonição: um pedaço do meu corpo foi enterrado metros no chão, se decompôs e virou nutrição. Uma parte de mim é partícula, célula e semente. Minha mãe contou que a analogia do cordão umbilical enterrado diz respeito também a conexão com o espaço: — Essa menina sempre volta, o umbigo dela está enterrado aqui. Acho que sou árvore, acho que sou deles.
Leia o poema ORAÇÃO de Higor Porfírio de Oliveira:
ORAÇÃO
PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CHÃO
ENSAGUENTADO E SUJO NO NOME
TRAGO A VÓS, O NOSSO REINO
QUE NÃO FOI FEITO À TUA VONTADE
POIS, ESTÁS ASSIM NO BANCO DOS RÉUS.
E PAI NOSSO QUE A CADA DIA NOS TRAI HOJE
E MERECE TODAS AS NOSSAS OFENSAS
POIS AQUI JÁ NÃO TE PERDOAMOS
QUANDO TU TENS A NÓIS OFENDIDO
E QUE DEUS NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO
AFASTAI-NOS DE TODO OS MALES, AMÉM!
TRAGO AQUI A ORAÇÃO QUE POSSO
POIS JÁ NÃO REZO COMO PODIA
TRAGO AQUI TODO E CADA PAI NOSSO
QUE POR AÍ VIVE TODOS OS DIAS
SEM AFETO E CARINHO NO PEITO
SEM AMOR E COM ÓDIO NA MENTE
E EU REZO QUANDO ME DEITO
PRA QUE DEUS PLANTE A SEMENTE
DO AMOR NO PEITO DO HOMEM
PRA QUE NÃO VIOLENTE MULHER
ENQUANTO REZO, ELE JÁ SOME
PRA FAZER TUDO QUE QUISER.
UMA BRIGA NO BAR E UM TOMBO
UMA ARMA APONTADA PRO PEITO
NAS NOSSAS VIDAS, SÓ MAIS UM ROMBO
SABENDO QUE ELE FOI ELEITO.
O ESCOLHIDO DA NOITE À MORTE
ENQUANTO MAINHA CHORAVA NO CANTO
MAIS UMA FAMÍLIA SEM SORTE!
MAIS UMA FAMÍLIA NO PRANTO!
O DITADO NÃO SE CUMPRIU
ELE ERA “VASO” E QUEBROU LIGEIRO
LÁ NO FUNDO MINHA ALMA QUE RIU
PORQUÊ ELE FOI PRIMEIRO.
E NEM COMEMORO A MORTE DO PAI
MESMO QUE ELE QUISESSE A MINHA
E HOJE DO PEITO O ALÍVIO QUE SAI
POIS ELE NÃO BATE MAIS EM MAINHA.
E ONDE ESTIVER, ESPERO QUE ESCUTE
TODO MEU AMOR E A MINHA ESPERANÇA
A SUA ALMA, EU ESPERO QUE LUTE
E HABITE NO CÉU COM BONANÇA.