Debate sobre construção da identidade do povo brasileiro fez uma defesa das cotas raciais; ato no começo da noite teve manifesto em defesa da política de acesso ao ensino superior 

Os estudantes lotaram o auditório onde fica o Palco 360º, na Fundição Progresso, para assistir um dos debates mais esperados da 13ª Bienal da UNE, que aconteceu na tarde desta sexta-feira (3).

Com o tema “Os rios que constroem nossa identidade: um Brasil de todos nós”, a mesa foi formada pela ex-presidenta da UNE e atual professora da USP, Lúcia Stumpf, o jornalista e fundador do jornal Voz das Comunidades, Renê Silva e a mais aguardada pelo público: a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco – irmã da vereadora Marielle Franco.

A fala de abertura ficou por conta da presidenta da UNE, Bruna Brelaz, que ressaltou as lutas para garantir mais possibilidades ao povo. “Desde o ‘descobrimento’ do Brasil há um desafio de fazer com que seu povo seja soberano, que seja socialmente e economicamente desenvolvido”.

O debate foi mediado pela diretora de Comunicação da UNE, Manuella Mirella. A primeira convidada a se apresentar foi Lúcia Stumpf, que já começou criticando as formas de construção de narrativas históricas do país, por potencializarem o silenciamento de um ‘verdadeiro Brasil’.

Stumpf sugeriu que mais atos, como a queimada da estátua do bandeirantes Borba Gato, sejam articulados. “A gente precisa se reconstruir a partir da destruição e do que foi o apagamento da nossa história”, pontuou.

A ex-presidenta da UNE destacou o retrato da posse de Lula como um exemplo de iniciativa compatível com um país que respeita a diversidade. “É fazendo ciência e arte que a gente vai reconstruir o Brasil com a nossa cara”, considerou.

O comunicador Renê Silva também comentou sobre os desafios da juventude na construção de um novo Brasil e reforçou a importância do fortalecimento da comunicação comunitária nesse processo. “Esse mal da fake news ainda não acabou, continua perpetuando. E a gente precisa acabar com isso”, advertiu.

Reconhecido nacionalmente por registrar em tempo real, no Twitter, a ocupação de forças militares no Complexo do Alemão, Renê Silva acredita que ainda serão necessários alguns anos para conscientizar a população sobre os riscos que notícias falsas geram à democracia. “Tem de ser um processo de reeducação que passa por várias gerações”, acrescentou.

Considerado um dos debates centrais da programação, os estudantes presentes fizeram uma grande festa para receber e ter a oportunidade de debater com a ministra Anielle Franco, sobre pautas tão caras à militância.

“A gente vai debater e construir junto com o ministro da Educação, Camilo Santana, sobre o fortalecimento das cotas, como vai ser a permanência” adiantou.

A ministra, que foi bastante aplaudida durante toda apresentação, reforçou a necessidade de defender a Lei de Cotas. “As cotas são a maior lei de reparação de políticas de ações afirmativas que esse país já teve”, afirmou.

Ao pontuar os desafios e lutas enfrentados pelo povo preto, incluindo jovens, a plateia bradou com força o grito: “Que não teme a luta, que não teme a morte. Povo negro unido, povo negro forte”.

Anielle Franco revelou as situações difíceis que passou após o assassinato da irmã e as transformações até que chegasse ao cargo de ministra da Igualdade Racial, após a pasta ser recriada no no vo governo Lula. “Que bom que eu tava do lado certo da história, que bom que eu tô aqui hoje”, comemorou a ministra, que conversou e tirou fotos com dezenas de estudantes no fim da apresentação.

Manifesto pelas cotas

Defensora da Lei de Cotas, pela qual foi contemplada, a ex-BBB e professora de Biologia, Jessilane, foi convidada pela UNE para ler um manifesto no palco montado dos Arcos da Lapa.

Antes do show da banda BaianaSystem, Jessi, como é conhecida, leu o texto para uma multidão na Lapa. “Eu acho que cotas abrem portas e eu falo isso por experiência própria, pois abriram todas as minhas”, disse em entrevista à UNE que antecedeu o ato.

A bióloga ainda comentou sobre os impactos e a acessibilidade a diversos espaços, causando um sentimento de pertencer aos beneficiários dessa legislação.

“Acho que é uma política de reparação que tem que ser revisada como todas as outras políticas, mas que tem que continuar existindo sim, porque é uma possibilidade de mudar a cor e a cara das universidades”, sinalizou Jessi.

A 13ª Bienal da UNE segue até domingo (5), com uma programação repleta de atrações culturais na Fundição Progresso e shows musicais gratuitos nos Arcos da Lapa. A expectativa é que cerca de 15 mil estudantes de todo país participem do festival.