Leia o artigo do diretor de Relações Internacionais da UNE, Pedro Lucas e entenda como o governo Milei pode afetar estudantes brasileiros

Nos últimos tempos, o cenário político argentino tem sido marcado pela ascensão de figuras controversas, e Javier Gerardo Milei certamente se destaca nesse contexto. Com a sua postura extremista, em que se autodenomina como libertário, governando o terceiro maior país da América Latina, Milei apresenta um pacote de mudanças , promete transformações para a política econômica e social do país, que não cabem na Argentina.

Ainda no apagar das luzes de 2023, o governante apresenta uma proposta que, segundo ele, tem como objetivo solucionar os problemas econômicos a partir do déficit fiscal do estado. A preocupação gira em torno de reduzir a intervenção do Estado na economia, promover o livre mercado e cortar gastos públicos.

No bojo de tais medidas, destaca-se a educação, ponto crucial dos que não admitem a democracia como meio de construção de uma nação. Essa postura não foi uma surpresa. Milei representa um velho projeto liberal para Argentina, disfarçado de novidade rebelde.

Com a derrota do campo democrático no país, acende-se um alerta importante para o movimento estudantil em toda a América Latina.

Mas como isso pode afetar os estudantes brasileiros?

Antes disso, é importante fazer uma análise comparativa entre a posição dos líderes da extrema direita quando se trata de educação. Não parece coincidência, mas em 2019, logo no início do seu mandato aqui no Brasil, Bolsonaro ataca diretamente as universidades públicas brasileiras. Seria a educação a força com potencial no combate aos discursos fascistas? Qual o objetivo do desmonte das universidades?

Vamos direto ao ponto, você conhece o novo pacote econômico proposto pelo presidente da Argentina? Qual o preço dessas mudanças? Na educação, basicamente, se resume em tributar estudantes estrangeiros que estudam de graça nas universidades argentinas.

O pacote proposto conflita diretamente com a Constituição Nacional da Argentina, já que a constituição prevê gratuidade das universidades públicas tanto para os nativos como para os estrangeiros, residentes ou não. Caso o pacote seja aprovado no Congresso, mais de 117,8 mil estrangeiros estudantes universitários serão prejudicados, dentro desse dado, mais de 10 mil estudantes são brasileiros.

Como o país que lutou e garantiu a Reforma Universitária de Córdoba, considerada como um marco histórico das universidades latino-americanas, por garantir um modelo que atribuiu um exemplo de atuação renovada do ensino superior, chegou a esse nível de ameaça à autonomia universitária?

Vê-se, então, que próximo período será cheio de desafios. A saída para o enfrentamento do governo Milei não será muito diferente da que foi no governo Bolsonaro. Só com muitas mobilizações de rua, fortalecimento das entidades estudantis e comprometimento dos movimentos sociais da Argentina, será possível barrar os atrasos a serem impostos no país vizinho.

Construiremos os caminhos para que os estudantes brasileiros se somem à luta, na defesa da educação argentina e pela solidariedade internacional, na defesa da democracia.

A derrota do imperialismo em toda a América latina é um desafio de todos. Venceremos!

* Pedro Lucas Ferreira é diretor de Relações Internacionais da UNE.