Assuntos foram as mesas mais concorridas deste segundo dia do maior fórum do movimento estudantil da América Latina

O 59º Congresso da União Nacional dos Estudantes (Conune) realizou, nesta quinta-feira (13/07), duas mesas para discutir mudanças climáticas, com especial atenção à Amazônia, e direitos dos povos tradicionais. Nos dois encontros, valeu o entendimento de que o movimento estudantil precisa se apropriar e atuar na linha de frente destas duas bandeiras, consideradas essenciais ao novo momento do Brasil.

Bastante concorrida, a mesa ‘Juventudes pelo clima: em defesa da Amazônia e do meio ambiente dentro das universidades’ reuniu Márcio Astrini (Observatório do Clima), Beatriz Calheiro (IPHAN-AM), Dorinaldo Malafaia (deputado federal/PDT-AP), Carina Vitral (ex-presidenta da UNE e assessora do Ministério da Fazenda) e Guilherme Cortez (deputado estadual Psol/SP).

Márcio Astrini abriu o debate defendendo a importância de discutir com seriedade as questões climáticas, especialmente porque elas tocam outros temas importantes, a exemplo da desigualdade social. “As pessoas que mais pagam pelas consequências são as que menos causam o problema. Mudança climática é uma fábrica de pobreza e de agravamento da desigualdade social”, disse.

Márcio Astrini (Observatório do Clima) / Foto: @yuri_salvador

Carina Vitral, que representou na ocasião o Ministério da Fazenda, fez coro com a defesa de Astrini e afirmou que o Brasil precisa pensar um modelo econômico alinhado com as discussões sobre o meio ambiente. A ex-presidenta da UNE informou, inclusive, que a pasta já está trabalhando na elaboração de um plano de transformação ecológica para o País.

“É um plano muito amplo e que vai pautar a economia dos próximos anos […] Não existe mais a possibilidade de manter um modelo predatório. É o papel do Ministério da Fazenda de chegar em um modelo que alie preservação ambiental e superação da pobreza”, afirmou Carina Vitral.

Protagonismo

A assessora do Ministério da Fazenda foi uma das convidadas que defenderam a atuação protagonista do movimento estudantil nas discussões sobre clima. “Isso é assunto da juventude brasileira. Não pode ser um assunto das ONGs alemãs. O movimento estudantil precisa se apropriar disso, porque diz sobre o nosso futuro”, completou.

Alinhado com o discurso de Carina, o deputado Guilherme Cortez acrescentou que, embora a crise climática não tenha sido gerada pela juventude, os estudantes precisam encará-la como forma de construir um futuro possível. “Tenho certeza que o movimento estudantil, a juventude, vai ser, e precisa ser, a vanguarda dessa luta, para impedir que esse sistema mude a nossa vida. É ecossocialismo ou é extinção”, sentenciou.

Voz da Amazônia

Outro ponto presente na discussão foi o lugar das populações da Amazônia nas análises e decisões sobre os problemas ambientais. Segundo o deputado Dorinaldo Malafaia, ainda persiste o comportamento que dá a não-moradores a tarefa de pensar políticas públicas para a região, de modo a escantear quem vive e conhece a realidade do bioma.

“Pensar a Amazônia sem perguntar a quem vive como a Amazônia funciona não dá […] Fico triste quando estou em uma reunião e alguém da Faria Lima chega com um plano pronto para a Amazônia. Isso me ofende profundamente”, lamentou o parlamentar do Amapá.

Superintendente do IPHAN, Beatriz Calheiro / Foto @yuri_salvador

A superintendente do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no Amazonas, Beatriz Calheiro, reforçou que o seu povo ainda é visto sob uma ótima de inferiorização. “A Amazônia ainda é tratada como colônia. De forma exótica, mítica. Não estamos aguardando ninguém para nos salvar. Estamos ativos, produzindo o melhor para nossa gente”, disse.

Povos tradicionais

A outra mesa, batizada de ‘Luto pelo que é nosso: a luta na garantia e ampliação de direitos dos povos tradicionais’ reuniu nomes como os de Jorge També (Secretária de Saúde Indígena – SESAI), Viviane Reis (ex-deputada federal Psol-PA) e Arlindo Baré (União Plurinacional de Estudantes Indígenas). Houve um entendimento de que o movimento estudantil tem avançado nessas discussões.

Diretor da UNE, Tel Guajajara /
Foto: @yuri_salvador

Segundo Viviane Reis, que é oriunda da luta dos estudantes, a realização do 1º Encontro de Estudantes da Amazônia, em 2021, e a eleição da amazônida Bruna Brelaz para a presidência da UNE, no mesmo ano, são exemplos de que tem havido um entendimento de quais os temas merecem a atenção do movimento.

Mesa Povos Tradicionais / Foto: @yuri_salvador

“A Amazônia é o centro dos debates nacionais e internacionais. […] Ter mesas, no Congresso, para falar sobre Amazônia e sobre os povos tradicionais mostra um comprometimento que não é apenas no discurso, mas no dia a dia da construção dessa entidade”, afirmou a ex-deputada federal, hoje coordenadora do projeto Casa Amazônia.

As duas mesas fazem parte de uma extensa e diversa programação elaborada para o 59º Conune. Ao todo, são 30 debates previstos.

Por Erikson Walla