Convidados falaram sobre empoderamento e o reconhecimento da ancestralidade negra
A manhã deste sábado (6), segundo dia do Encontro de Estudantes Negros, Negras e Cotistas da UNE, começou com um animado debate sobre as ”Novas Linguagens para a Luta Antirracista”. Poesia, música e claro, as considerações dos convidados, agitaram a plateia presente na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador.
Participaram da mesa a representante da Marcha do Empoderamento Crespo, Ivy Guedes, o poeta e produtor do Sarau da Onça, em Salvador, Sandro Sussuarana, o fotógrafo e pesquisador Roger Cipó e o professor e representante da Iniciativa Negra Por uma Nova Política de Drogas (INNPD), Dudu Ribeiro.
”Pesquisa acadêmica precisa ter de Marx a Bauman? Cadê os autores indianos, africanos, negros? Nós precisamos desobedecer a academia e dizer que essas teorias universais não nos contemplam. Vamos fazer nossos trabalhos de conclusão de curso e usar além autores negros e negras, além de todos esses que já nos são solicitados”, disse Ivy Guedes.
Dudu Ribeiro concordou com a necessidade da utilização de mais autores negros nas pesquisas. ”Temos que recuperar Abdias do Nascimento, Milton Santos, Carolina de Jesus e claro, olhar pra frente porque tem muita negrada boa criando novas coisas. Vamos resgatar nossas raízes para pensar de que lugar partimos para realizar nossas lutas políticas. Saber a história da onde viemos é fundamental para criar novas narrativas antirracistas”, afirmou.
PELO DIREITO DE ENCRESPAR
A valorização da estética negra como ferramenta política e empoderadora também foi abordada durante as discussões.
Para os convidados, os cabelos crespos e as diversas formas de usá-lo são uma maneira de reafirmar a identidade de um povo que historicamente teve seus corpos negados.
”Assumir nosso cabelo crespo e estar na rua com altivez mostrando quem realmente somos é uma afronta ao racismo. Essa estética sempre nos foi negada, mas agora estamos na rua para lutar pelo direito de encrespar nossos cabelos”, salientou.
Em 2015, a Marcha do Empoderamento Crespo reuniu mais de 3 mil pessoas em Salvador, 41 anos depois de uma marcha histórica que se deu em pleno carnaval da cidade, em 1974 – o primeiro desfile do bloco Ilê Ayiê, uma das marcas do Movimento Black Power na Bahia.
Ancestralidade é o poder
Roger Cipó lembrou da importância das religiões afro brasileiras na construção do empoderamento e identidade do povo negro.
”É preciso desconstruir os estereótipos negativos acerca das religiões africanas. Entender nossa ancestralidade é sobretudo nossa forma e ato político de estar no mundo. E não é essa ancestralidade que a academia diz, é a que a gente vive. Olho no olho, de irmão pra irmão, com muito afeto. Uma coisa que o preconceito e o racismo faz é nos distanciar uns dos outros. Não vamos deixar isso acontecer. Vamos resgatar nossas raízes e nos abraçar”, falou.