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“Juventude, Trabalho e Uberização: um Brasil que não nos permite sonhar”

25/01/2021 às 12:08, por Cristiane Tada.


Diretor da UNE, Carlos Filho, fala sobre desmonte de políticas públicas para a juventude nos últimos anos, avanço do capitalismo e suas consequências. Leia o artigo:

A juventude brasileira que viveu no início dos anos 2000 até o golpe contra a Presidenta Dilma um período de oportunidades com abertura de vagas na Universidades, programas de intercâmbio, crescimento acelerado da economia o que gerou milhões de empregos com carteiras assinadas em todo Brasil, agora vive com mais incertezas e medos do que possibilidades.

Desde que o golpista Michel Temer assumiu a presidência até os dias atuais um verdadeiro desmontes das políticas públicas para a juventude vem acontecendo no nosso país, e somado a isso o avanço desenfreado da tentativa do capitalismo de implementar a uberização como forma sútil de retirar direitos dos trabalhadores fazendo-os acreditar que são empreendedores, o que vem seduzindo parcela importante da juventude brasileira.

É necessário entender o fenômeno da uberização do trabalho como um marco inaugural da superexploração do trabalhador, sobretudo do trabalhador jovem e pobre na era digital e no mundo tecnológico do trabalho, para que possamos compreender a relação de trabalho/juventude neste século.

De acordo com pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), realizada em dezembro de 2019, existem no Brasil mais de 13 milhões de trabalhadores como motoristas de aplicativos de viagens ou de entrega de comida, causa da grave crise econômica e reflexo da reforma trabalhista que diminuíram o número de postos formais de trabalho e quem mais sofre com isso é a juventude, que fica a cada dia com menos perspectivas pro futuro.

Os estudos apontam que em média a idade desses trabalhadores de empresa de aplicativo é de 29 anos, sendo que cerca de 40% tem até 25 anos e a maioria esmagadora, mais de 90%, são homens. Mais de 4 milhões de Brasileiros tem nesses empregos a sua forma principal de sustento.

As condições aos quais são submetidos os jovens nesse trabalho são de fato desumanas, com longas jornadas de trabalho, fora de qualquer padrão civilizatório, desprotegidos de saúde física e mental e com nenhuma segurança laboral, recebendo muito pouco por tudo isso e sem nenhuma garantia trabalhista.

Dito isso, é importante ressaltar que é de suma importância o reconhecimento do vínculo empregatício entre os trabalhadores e as empresas de aplicativo para que haja limites à exploração a que estão submetidos atualmente e possa haver minimamente um reparo e indenização pelos serviços prestados, uma vez que essas empresas pregam a independência do trabalhador e a não configuração da relação de emprego, o que as desonera no pagamentos de verbas rescisórias, deixando totalmente desprotegidos os trabalhadores desse tipo de serviço.

Empresas como a Uber, iFood, Rappi e outras vedem que os jovens, entregadores de comida ou passageiros, são empreendedores ou profissionais autônomos sendo assim, colaboradores das grandes marcas que dominam o mercado mundial e que obtiveram enormes crescimentos nos últimos anos. Jovens de bicicleta, pedalando nas vias mais movimentadas das grandes cidades brasileiras, com o celular na mão, expostos aos mais diversos perigos, símbolos de um sistema fracassado e em declínio.

Assim, é crucial entender o perfil da juventude trabalhadora para que possamos pensar políticas públicas e formular estratégias e táticas que sejam de fato eficazes ao enfretamento desse grave problema que é a falta de oportunidades e o aumento da informalidade nos postos de trabalho existentes no Brasil de Bolsonaro.

De acordo com a pesquisa Juventude e Trabalho do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Social, os jovens foram a parcela da população que mais perdeu renda no trabalho nos últimos cinco anos e é entre a juventude que estão os maiores índices de desigualdade. A pesquisa mostra ainda, que entre 2014 e 2019, jovens de 15 a 29 anos perderam 14% da renda proveniente do trabalho. Entre os jovens mais pobres, esse percentual chegou a 24% e, entre analfabetos, 51%.

Não é necessário fazer uma análise detalhada na pesquisa citada para perceber que crise econômica atingiu de forma mais profunda a juventude pobre e com pouco acesso à educação. Esse é o perfil de grande parcela dos jovens de todo o país, que seguem no centro do furacão dos explorados nessa política empresarial de apagamento das relações de trabalho: sem direitos, sem aposentadoria e sem o direito de sonhar.

Além de todos os elementos da difícil conjuntura Nacional e Internacional que afetam cotidianamente a vida dos brasileiros, a grave crise sanitária causada pela Covid-19 nos apresentou inúmeros outros desafios. Estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que a pandemia vai representar para juventude, uma geração abandonada, tendo em vista que poucos conseguirão entrar no mercado de trabalho e os que conseguirem vão entrar com péssimas condições. Ainda de acordo com a CUT – Central Única dos Trabalhadores, a população na força de trabalho no terceiro trimestre de 2020 foi de 96,5 milhões de pessoas – queda de 9,2% (menos 9,8 milhões de pessoas) em relação ao mesmo trimestre de 2019, sendo a maior parte de jovens.

É necessário que esse debate esteja na ordem do dia, pois é preciso garantir que esses entregadores, que todos os dias lotam as ruas das principais cidades brasileiras, em condições precárias lutando por sobrevivência, tenham garantidos de volta seus direitos mínimos e mais do que isso, que eles possam voltar a sonhar em entrar na Universidade, ter trabalho com carteira assinada e uma perspectiva de futuro diferente.

Pois não há que se falar em desenvolvimento nacional sem condições de gerar trabalho e oportunidades para os mais jovens e frise-se, não é qualquer trabalho, é necessário um trabalho digno e decente que coadune com a interface do conceito de “trabalho”, nos moldes traçados pela Organização Internacional do Trabalho, pondo fim ao fenômeno da uberização, que nada mais é do que uma investida do capitalismo contra os direitos mínimos da classe trabalhadora.

Este é o triste cenário para a juventude brasileira que encara o desemprego e o trabalho precário restante em meio a esse total desgoverno: uma luta diária e perversa pela sobrevivência diante dos ataques liberais, que agora tem um nome moderno e uma falsa capa chamada de parceria e colaboração; ao fim é tudo pela exploração desenfreada do capital.

O desafio é enorme e precisamos buscar saídas que nos ajudem a retomar o processo de desenvolvimento e oportunidades que o Brasil viveu nos Governos de Lula e Dilma. Para isso, precisamos derrotar Bolsonaro, enfrentar a cultura capitalista do atual modelo produtivo, e devolver à juventude o direito de ousar sonhar.

*Carlos Filho é Estudante de Direito e Diretor da UNE- União Nacional dos Estudantes. 

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