Discussão da abertura da investigação foi marcada por tumulto e desrespeito as entidades estudantis na Casa Legislativa
Muito longe de acabar, a primavera secundarista continua em 2016. Dessa vez, estudantes estão mobilizados para a abertura de uma CPI para apurar superfaturamento das merendas na rede estadual de educação.
Partindo do princípio que irregularidades tem por obrigação legal ser apuradas pelo governo, a CPI não deveria ter entraves para ser implantada. Pois no caso das merendas, sim, ela está travada, uma vez que um dos principais beneficiados do esquema de corrupção é o deputado Fernando Capez (PSDB), que preside a Assembleia de Legislativa de São Paulo (ALESP).
Nessa terça-feira ( 23/02) a União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP) e União Paulista de Estudantes Secundaristas (UPES) e professores da Associação de Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) tomaram a assembleia para colher assinaturas para a abertura da CPI e reafirmar que as entidades estão posicionadas contra as arbitrariedades.
“A mobilização de ontem foi importante porque mostrou que os estudantes e professores não aceitarão mais a impunidade com quem tenta destruir a educação paulista. A CPI precisa ser instalada na ALESP e investigar todos os envolvidos. A luta não vai parar até que os fatos sejam apurados e os ladrões da merenda sejam punidos”, disse Angela Meyer, presidenta da UPES.
Até agora são 23 assinaturas – toda a bancada do PT, PcdoB, PSOL e 1 do PSDB ( ironicamente do Fernando Capez). Para a implantação da CPI são necessárias mais nove deputados.
Tumulto
Cerca de 300 manifestantes fizeram mobilização durante sessão no Plenário Juscelino Kubitschek, que discutia a abertura da CPI. A polícia da ALESP tentou impedir a entrada dos estudantes e professores e houve tumulto. Do lado de fora, mais cerca de 400 pessoas foram impedidas de entrar.
O deputado João Paulo Rillo (PT) interferiu e conseguiu deixá-los participarem da sessão. A CPI não foi aberta e os deputados do PSDB e da base do governo demonstraram mais uma vez que não estão preocupados com o desvio da merenda, e com os roubos do governo, protegendo mais uma vez os desmandos.
A deputada Analice Fernandes ( PSDB), que presidiu a sessão na maior parte do tempo: suspendeu a sessão por pelo menos por cinco vezes, a pedido de parlamentares como Campos Machado (PTB) e Coronel Telhada (PSDB), numa tentativa de fazer com que o público presente desistisse de esperar e esvaziasse as galerias. O deputado Coronel Telhada foi um capítulo à parte. Já na tribuna, tendo seu direito de fala respeitado, chegou a dizer que os manifestantes estavam recebendo sanduíche de mortadela para protestar, e debochado, ofereceu sanduíches de presunto e queijo para calar os presentes: “Sanduíche de presunto e queijo é um pouco melhor.” disse ele. Antidemocracia, desrespeito e preconceito foram as características do tratamento do parlamentar com os manifestantes. Nada surpreendente para o perfil do Coronel.
“Ontem a casa do povo, fechou as portas para estudantes e professores, com o auditório selado, tentou se passar a imagem que nada estava errado fora daquelas quatro paredes, com o Presidente da Assembleia Fernando Capez, sendo citado nos desvio de milhões da merenda, que culminou com o empobrecimento da alimentação das crianças do nosso estado”, afirmou Peter Lucas, diretor da UEE-SP, que estava presente na mobilização.
Para o diretor, é o momento dos estudantes e a população ocuparem as ruas, para cobrar investigação, justiça, melhorias na educação e alimentação nas escolas.
Para a próxima semana, a discussão promete pegar fogo. Os deputados que já assinaram a CPI farão pressão para angariar novas adesões e terão conversas massivas até mesmo com o próprio Capez, para que ele incentive sua base aliada de deputados tucanos a assinar, numa ação de transparência para o caso. No próximo debate, petistas, psolistas e bancada do PCdoB esperam que Capez participe da sessão.