Ato realizado na Universidade de Brasília, 55 anos após instituição ser invadida pelos militares, teve participação de familiares de Honestino Guimarães e Helenira Rezende

A posse dos 85 diretores da União Nacional dos Estudantes, eleitos no 59º Congresso da UNE, realizado de 12 a 16 de Julho, aconteceu nesta noite de 31 de Agosto, em Brasília.

55 anos após ser invadida pela ditadura militar a Universidade de Brasília, recebeu estudantes e familiares dos dos ex-presidentes da entidade, Honestino Guimarães e Helenira Rezende, assassinados pelos militares na década de 70 e homenageados no ato.

A a nova presidenta da UNE, Manuella Mirella, entregou uma carta ao Ministério da Justiça pedindo a reabertura do Comissão Nacional da Verdade. Finalizada há nove anos a CNV apurou as circunstâncias de morte de vários perseguidos durante a ditadura, as perseguições e atualizou documentos no objetivo de efetivar o direito à memória e a verdade histórica e promover a reconciliação nacional.

Foto: @kboughoff

Na carta a entidade ressalta que ainda existem muitas feridas abertas, e muito a se descobrir e passar a limpo sobre a página mais infeliz da nossa história. “Muitas mães como a de Honestino Guimarães morreram sem saber o paradeiro dos restos mortais de seus filhos. A necessidade de políticas de reparação é urgente. Relembrar a ditadura hoje, é importante porque muitas das nossas lutas atuais ainda permanecem as mesmas daquela época e há grande inspiração por aqueles e aquelas que resistiram”, diz trecho. Leia aqui.

Helenira foi morta em 1972 na Guerrilha do Araguaia, no Tocantins e Honestino foi preso e dado como desaparecido em 1973 no Rio de Janeiro. Durante o ato Marta, sobrinha da ex-presidenta afirmou que “ver uma diretoria da UNE feminina, preta e nordestina não tem preço, porque era por isso que a Helenira lutava”. Ela também reforçou a necessidade da reabertura da CNV. “Um povo sem passado, não consegue construir futuro, e essa missão é de vocês”.

Vice-presidenta Daiane Araújo, Presidenta Manu Mirella, Secretária Geral, Júlia Kopf / Foto: @kboughoff

A presidenta da UNE destacou que além de passar a limpo o passado, o compromisso dos estudantes no combate diário contra o fascismo e autoritarismo. “Nós exigimos que aqueles que atentaram contra a democracia no dia 8 de janeiro e aqueles que financiaram esse golpe sejam presos, e que paguem por esse crime contra o nosso país”, ressaltou.

Quem foram Honestino e Helenira?

Helenira foi eleita vice-presidenta em 1968 e Honestino foi eleito presidente da UNE em 1971, com a entidade na clandestinidade, tempos em que ser dirigente estudantil era praticamente uma sentença morte. A família de Helenira nunca foi oficialmente informada sobre o que se passou com a jovem, tampouco sobre onde estariam seus restos mortais.

Foi só em 2013 durante a 73ª Caravana da Anistia do Ministério da Justiça que o Estado brasileiro reconheceu seu envolvimento na perseguição e morte de Honestino, fez um pedido oficial de desculpas para a família e retificou seu atestado de óbito depois décadas sem resposta. Hoje consta a causa da morte: dependente de tortura e atos de violência orquestrados pelo Estado.

Resultado direto da instalação da Comissão Nacional da Verdade um ano antes votada pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidenta Dilma, a CNV foi uma afirmação do Estado de Direito no Brasil. A história resgatada e investigada pela Comissão é de violações extremas de direitos humanos, mas igualmente de oposição e resistência dos estudantes brasileiros. Ela inspirou a instalação da Comissão da Verdade da UNE,  aberta em janeiro de 2013, durante o Conselho Nacional de Entidades de Base (Coneb) no Recife (PE)  que investigou e levantou o nome de 85 universitários assassinados e desaparecidos no regime militar, entre eles dos dois homenageados da posse da UNE em 2023. 

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