Ex-presidente da UNE foi secretário executivo e ministro interino do Ministério do Meio Ambiente em 2003
O ato em homenagem aos 40 anos de reconstrução da UNE foi um momento histórico da 57ª edição do Congresso da entidade. Ex-presidentes de diversas épocas participaram e celebraram a história do movimento estudantil com mais de 15 mil jovens presentes no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília.
Um deles foi o gaúcho Claudio Roberto Bertoldo Langone, formado em engenharia química e presidente da UNE de 1989 a 1991. Langone também foi secretário executivo e ministro interino do Ministério do Meio Ambiente em 2003.
Ao site da UNE, ele falou um pouco sobre a questão ambiental que está seriamente ameaçada no Brasil e relembrou sua passagem na entidade.
Confira a entrevista:
O meio ambiente tem sido umas áreas mais prejudicadas desde o início do governo Bolsonaro, assim como a educação. Qual a sua avaliação para o setor neste momento?
Eu acho que estamos vivendo um processo de retrocessos expressivo na área ambiental em função que esta área hoje está sob comando de pessoas mais ligadas ao agronegócio e tem um setor mais atrasado do agronegócio que não vê a importância da questão ambiental para a inserção no mercado internacional. Já há cisões no próprio setor porque esses sinais todos que podem impossibilitar ou inviabilizar o fundo Amazônia, os sinais de liberalização da fiscalização da Amazônia em relação ao financiamento são sinais que não produzem efeitos imediatos, que vão se acumulando e vão aparecer em seis meses, um ano para a frente.
E depois de grandes conquistas do Estado brasileiro no sentido da diminuição do desmatamento, da liderança do Brasil no contexto do acordo do clima, da criação do fundo Amazônia e da criação do aporte para projetos no caso do fundo Amazônia cerca de 40% dos projetos são aportes governamentais, são conquistas sob as quais nós não deveríamos retroceder e a gente vê tanto que os setores mais modernos do agronegócio, quanto as grandes empresas que operam na área de infraestrutura do setor industrial, elas não tem o interesse na desregulamentação, porque você precisa atender para ter acesso a certos mercados internacionais, principalmente o Europeu, você precisa atender padrões internacionais, independente do grau de exigência da lei nacional se você não atender esses padrões você vai ter perdas expressivas de nichos de mercado em termos globais.
Eu vejo com preocupação esse cenário, acho que o próprio acordo Mercosul-União Europeia pode ser comprometido em função disso e acho que mesmo essa discussão sobre uma liberalização geral do licenciamento ambiental, através da aprovação de uma nova lei de licenciamento ambiental não é positiva para o Brasil depois de todo o avanço que tivemos.
Pode trazer consequências ambientais expressivas, consequências sociais porque uma parte significativa dessas agendas estão ligadas a viabilização de alternativas econômicas para povos extrativistas, quilombolas, indígenas e outros. E traz sobretudo consequências econômicas para setores expressivos da economia brasileira.
Geralmente não é um ponto que se pega no discurso ambiental, o econômico não é?
Pois é, mas acho que o enfoque econômico é o mais importante de todos, porque o Brasil é reconhecido internacionalmente por ter padrões avançados em termos de desempenho socioambiental, porque a gente conseguiu aqui evoluir positivamente de uma agenda mais conservacionista para uma agenda socioambiental trabalhando a inserção dos povos da floresta e dos povos tradicionais e essa questão da afirmação da preservação do meio ambiente com o direito desses povos tradicionais é uma questão muito expressiva para a imagem do Brasil no contexto internacional.
Como é estar em um Congresso da UNE tanto tempo depois?
Eu fui eleito presidente da UNE em setembro de 89, dez anos depois da reconstrução. Este ano a gente completa 30 anos do Congresso que elegeu a nossa diretoria e ele aconteceu aqui em Brasília num local que não existe mais, foi num circo por coincidência a abertura foi um pavilhão comunitário na Unb, foi em uma estrutura parecida, e eu vejo como muito positivo que a UNE se abriu muito para uma agenda multitemática, a gente era muito focado nas questões da soberania nacional, na agenda política, etc, e muitas agendas de juventude, do meio ambiente, de minorias não apareciam na agenda da UNE, e eu vejo que hoje elas conseguiram incorporar esse conjunto de agendas que são fundamentais para além de uma entidade estudantil ser uma entidade de juventude.
Eu fico muito satisfeito também, porque o Congresso de 89, dez anos depois da reconstrução foi o congresso que aprovou a proporcionalidade nas eleições de diretoria, obviamente você teve composições políticas nesses dez anos até 89, mas num contexto que os derrotados ficavam de fora da diretoria. Então para você entrar na diretoria você precisava compor, a partir do momento em que você aprova a proporcionalidade você tem uma outra condição de construção da unidade porque você tem um processo de disputa e todas as partes tem representação na diretoria. Esse foi um aprendizado muito importante, porque foi um congresso que foi muito parelho dentro dos campos políticos, a nossa diferença de uma chapa para a outra foi de um voto, então para você ter governabilidade na UNE, você precisava além de exercitar essa coisa de maioria e minoria, você precisava construir politicamente uma agenda unitária.
E acho que neste contexto que marca os 40 anos da reconstrução, neste atual congresso, essa questão da proporcionalidade que é uma regra de composição, o amadurecimento deste processo ao longo deste 30 anos e foi um ponto de partida que nós fizemos e não foi uma questão fácil, ela foi polêmica. Ela traz as condições para uma coisa que absolutamente necessária no contexto atual, que é a construção de unidade e uma plataforma política para o Congresso que consiga atender a este contexto muito desfavorável do ponto de vista da defesa da educação pública, as ameaças as universidades, as conquistas democráticas nas universidades brasileiras.
Então muitas agendas que eram muito presentes na nossa época e que depois ao longo do processo a partir dos anos 2000 passaram a ser políticas afirmativas, levaram a UNE para uma outra relação para os governos elas voltam nesse momento com uma intensidade maior que a gente experimentou no finalzinho dos anos 80 e para enfrentar isso é muito importante que a UNE seja uma entidade agregadora, isso é o fundamental.
A UNE tem muita pluralidade, organizações de vários cortes políticos e ideológicos, você tem muitas formas de atrair os estudantes para estar nas entidades estudantis, muitas pessoas vão por uma pauta mais política e outras vão por a agendas específicas e acho que isso é positivo e natural, sobretudo uma unidade para você garantir a manutenção das conquistas que foram muito duras para serem conseguidas e de avançar no sentido de consolidar todos esses avanços.
A ampliação da oferta de vagas, a mudança muito expressiva do perfil do estudante brasileiro com a ampliação da oferta de vagas, a política de cotas, a gente percebe muitas ameaças objetivamente a essas conquistas com reflexos muito concretos com os estudantes que estão entrando nas universidades através dessas políticas afirmativas. Não são só de ameaça a corte de bolsas, de bullying pelos setores mais conservadores, são de restrição ao acesso a determinados mercados para esses profissionais. Em relação há 30 anos atrás o que eu vejo no Congresso da UNE é refletir na sua pluralidade a mudança da composição sobretudo das universidades públicas experimentada nos anos 2000 no Brasil.