Site da UNE conversou com cientistas políticos sobre o atual momento do Brasil, a ameaça à democracia com a queda da presidenta eleita e o papel do movimento estudantil na luta contra os retrocessos
O futuro do Brasil após o processo de impeachment sofrido pela presidenta eleita Dilma Rousseff, no último dia 31 de agosto, ficou nebuloso. A ameaça à democracia com o desrespeito à vontade das urnas e a iminência de retrocessos nos direitos sociais estão levando milhares de pessoas às ruas para protestar contra o governo golpista de Michel Temer e pedir novas eleições.
Diante deste cenário, o site da UNE conversou com especialistas para saber a opinião deles sobre a condução do processo de impeachment e o que podemos esperar deste novo momento político.
O professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Luís Felipe Miguel, foi categórico ao afirmar que o que ocorreu no Senado foi sim um golpe parlamentar.
”É importante dizer com clareza: trata-se de um golpe, de um procedimento sem respaldo nas leis. O ritual do impeachment foi seguido, mas não sua substância: não ficou demonstrado que Dilma cometeu crime de responsabilidade, única circunstância que permitiria a retirada de um governante eleito”, disse.
O professor de Ciência Política da Unicamp, Armando Boito Jr. concorda com a declaração de Luís Felipe e acrescenta: foi um golpe visando implementar no país um projeto de governo que foi rejeitado pelo povo.
”Foi um golpe parlamentar visando a restaurar o neoliberalismo puro e duro. O rito processual do impeachment, formal e aparentemente, foi correto, o que ocultou, para alguns, o fato de que não havia crime de responsabilidade. Mas o motivo real não foram os alegados decretos suplementares e sim colocar no poder uma equipe governamental neoliberal para mudar a política econômica, social, externa e cultural que vinha sendo implementada pelos governos do PT”, avaliou.
Muito já foi dito sobre isso, mas é importante lembrar que o grupo que depôs uma mulher eleita compôs um ministério e homens brancos e rompeu com os movimentos de mulheres e uma agenda construída ao longo de décadas”.
”O governo Dilma acabou, mas a crise política ainda está em curso. Entrou numa fase nova. É engano imaginar que um governo dividido, sem voto e que iniciou um ataque direto aos interesses e direitos populares vá ser capaz de conduzir em paz esse processo. Os conflitos devem se acirrar. A recusa do sistema político deve crescer. Está na hora de, além de lutar para depor Temer e realizar novas eleições começar a discutir e propagandear a palavra-de-ordem da Constituinte. Eles desidrataram a democracia”, acredita Armando.
Para o professor Luís Felipe a democracia está mesmo ameaçada com a tomada de poder pelo governo golpista. ”Embora existam muitas compreensões possíveis de democracia, dois elementos são consensuais: o exercício do poder exige o consentimento dos governados e há o império da lei. Esses dois elementos foram desrespeitados. A vontade popular expressa na eleição foi desrespeitada e a lei não foi cumprida. O impeachment é uma ruptura da democracia brasileira. Estamos vivendo um retrocesso muito grande”, enfatizou.
PAPEL DA JUVENTUDE
Diante desse diagnóstico, os especialistas acreditam que a atuação dos movimentos estudantis é fundamental na luta contra o golpe e restabelecimento da democracia.
”Em primeiro lugar, é importante que a contestação do golpe esteja nas ruas, esteja na esfera pública, não possa ser apagada “por decreto” – ainda que possa não ser noticiada. Em segundo lugar, o projeto em curso implica a desconstrução dos direitos sociais definidos na Constituição de 1988 e no ambiente político-institucional que ela instaura. O mundo que está em jogo é aquele que será vivido, com menos ou mais direitos, menos ou mais democracia, pela juventude. Penso também no “Escola sem partido” e nas tentativas atuais de controle da livre expressão e do pensamento crítico, em que a juventude é colocada num lugar de passividade: os movimentos estudantis, a juventude no seu cotidiano, nas redes e nas ruas, tem certamente muito a dizer sobre política, sobre desigualdades, sobre as implicações desse processo para o seu futuro.
Para o professor Luís Felipe, o movimento estudantil tem papel importante na mobilização.
”Também da organização, do diálogo permanente com suas bases no sentido do esclarecimento político. Em suma, a resistência. Ela não se dá só nos protestos de rua. É algo cotidiano, é a incitação permanente à contestação e à desobediência a ordens emanadas de quem não tem legitimidade para comandar.