Mesas discutiram temas como racismo religioso, cultura negra, trabalho, cotas e entre outros
No sábado (20/4) a tarde do 6º Enune nove mesas de debate aprofundaram as discussões entre estudantes e convidados sobre temas pertinentes a luta contra o racismo na universidade e na sociedade.
Direito à cidade; desafio das mulheres negras na universidade; luta pelos direitos LGBTs sob uma perspectiva negra e o epistemicídio do pensamento negro foram alguns dos temas.
Confira um pouco sobre o que rolou:

Racismo religioso
O debate sobre a superação do racismo religioso , trouxe o Babalawo Ivanir dos Santos. Ele destacou em sua fala que mesmo com a esquerda no governo, não houve oportunidade de mexer nas estruturas de poder que perpetuam o racismo no país.
Santos lembrou que a teologia é uma construção intelectual subjetiva e não é fé, e por isso pode criar ideias preconceituosas sobre as práticas religiosas como o que chamou de “demonização da Africa ”.

E questionou: “Qual é a diferença entre magia do demônio e milagre? Entre receber o espírito santo e um caboclo? Apenas a narrativa . Não vamos derrubar o discurso da intolerância sem saber da bíblia para entendermos”.
Para o Babalawo o racismo é muito sutil e na esfera religioso ele não se dá apenas na manifestação extrema de quebrar terreiros. “Temos que combater o Bolsonaro e mais todo aquele pensamento de colonizador que existe inclusive no nosso campo político”, afirmou.
Mídia e cultura negra, resistência
Um dos debates mais cheios foi sobre o assunto muito caro a juventude: a invisibilidade da cultura negra na mídia. A esse assunto se desenrolam outras pautas muito atuais como apropriaçao cultural, proibição e desconstrução do funk .
A ex-diretora de Cultura da UNE, Mel Gomes , pregou uma ressignificação dessa cultura que pode ser feita trazendo a comunidade para os espaços da universidade . Mel contou a experiência do baile funk que ela e os estudantes da UFF realizaram em Gragoatá. “Não podemos negar que o funk reproduz o machismo porque nas músicas são despejadas as manifestações que estão na sociedade. Mas sabemos que são outros olhares . Então tivemos o cuidado de enquanto as músicas estarem rolando a gente está explicando sobre consentimento e respeito à mulher”, explicou.

Reforma da Previdência
O debate sobre as perspectivas de trabalho da juventude negra girou em torno dos efeitos da restrição a aposentadoria que significará a reforma proposta pelo governo. É muito claro para os estudantes negros e cotistas que a medida atinge em cheio a população negra porque ela é a maioria em situação de vulnerabilidade.
Onã Rudá, da UEB destacou para a necessidade de organização dos estudantes para esse momento que vivemos.
“Eles tao propondo na nossa cara uma barbárie. Os números sinalizam nós temos realmente de fazer uma reforma? Eu tenho dúvidas . Precisamos fazer que as empresas devedoras da previdência paguem duas dividas ; garantir que tenhamos uma auditoria cidadã da dívida publica ; aumentar postos de trabalho e diminuir a informalidade. Acho q não precisamos fazer uma reforma agora antes de reorganizar as conta do estado pensando em gente ”.
Leninha da Aindiprev do MNU , salientou que quando se fala de deficit da previdência, não estão falando de banqueiros e sim de homens e mulheres negros. “Porque atinge a gente que recebe 2, 3 salários mínimos. Falar sobre como será nossa vida, nosso dia a dia.”
Para Leninha as organizações do movimento negro e sindical precisam ir para as praças, favelas, comunidades ribeirinhas para conscientizar essas pessoas. “Precisamos fazer o debate com os nossos pares, mostrar o que virá a impactar essa reforma ponto a ponto”.

Cotas e Permanência
O principal assunto deste 6º Enune foi com certeza a manutenção das cotas raciais e sociais. Frei David lembrou que o racismo no Brasil tem se colocado na forma mais repressora possível. Para ele é preciso estabelecer um diálogo com as pessoas sobre como ele se estrutura e organiza a sociedade. Para David o debate de quem é negro no Brasil e quais são os elementos que definem isso ainda não está superado. “Precisamos conseguir avançar, para amadurecer e orientar as nossas ações”.

Muito foi falado também sobre as fraudes nas cotas. Por isso houve a problematização a respeito das bancas de verificação de cotas e seus critérios.
A pro-reitora da UFBA, Cassia Reis, destacou em sua fala portaria que cria cotas na pós-graduação e que depois do golpe que retirou Dilma da presidência Capes e CNPQ que deveriam estar acompanhando essa questão não estão. Para Reis “precisamos afirmar nossa negritude a partir da garantia de direitos juntos. Nossa grande questão n é a inferiorização do homem e mulher negra. A essencialização a partir de um polo afirmativo é importante”.
Ela compartilhou sua experiência na investigação de fraudes nas cotas. “Não tem um jovem que está em dúvida sobre a sua identidade. Quem está fraudando são pessoas que sabem o que é fenótipo. O racismo é de alguém que nos olha e acha que estamos tomando um espaço que não nos pertence”.
Segurança pública
O debate sobre a violência e o extermínio dos jovens negros também foi um dos mais contemplados pelos estudantes. O convidado Edson Santana destacou a preocupação cobre o pacote anticrime do ministro da Justiça Sérgio Moro. Para ele e os estudantes presentes pontos do projeto como o fim da presunção de inocência como caso do ex-presidente Lula, e a mudança que pode argumentar ‘forte emoção” diante de abordagens policiais violentas são na verdade um aprofundamento dos autos de resistência.
Para Edson desmilitarizar a policia não é acabar com ela. “É preciso unificar as policias para acabar com o cooperativismo e melhorar a formação policial”.
Ele ainda lembrou que Temer antes de sair aprovou que militares que cometem crimes contra civis serão julgados por tribunais militares.
