Entidades estudantis apontam que o tesouraço de Flávio Bolsonaro ameaça a formação em saúde e o SUS

A UNE, a Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (DENEM) e dezenas de entidades estudantis de todo o país lançaram no dia 19 de Outubro o Manifesto em Defesa da Educação Pública e dos Hospitais Universitários. O texto denuncia o “Tesouraço” bolsonarista, que esconde corte, sucateamento e mercantilização atrás de promessas sem plano, e lembra que sem os HUs não há SUS forte, formação em saúde nem ciência a serviço do povo. O recado é direto. Quem quer destruir o SUS com planos mágicos vai encontrar estudantes organizados. A convocação é para formar comitês em defesa de cada hospital universitário, nas salas de aula, nos conselhos de saúde e nos territórios.

Leia o texto na íntegra:

MANIFESTO EM DEFESA DA EDUCAÇÃO PÚBLICA E DOS HOSPITAIS UNIVERSITÁRIOS

Defender os Hospitais Universitários (HUs) é escolher entre dois projetos de Brasil. De um lado, saúde, educação e ciência como direitos; do outro lado, o Tesouraço bolsonarista, com o corte de ministérios, a redução do Estado, a extinção de políticas sociais apresentados como solução mágica, sem qualquer explicação dos impactos reais. 

Quando a tesoura mágica desce sobre o serviço público, ela sai cortando as consultas, bolsas, concursos, pesquisas, residências e oportunidades de formação. Os HUs são estruturas estratégicas do SUS e da Universidade Pública, nas quais o Brasil cuida de sua população, forma profissionais e produz conhecimento, com assistência médica e multiprofissional.

A Constituição Federal de 1988 define a saúde como direito de todos e dever do Estado, protege a autonomia universitária e determina a integração entre ensino, pesquisa e extensão. A legislação dos HUs exige assistência gratuita, integrada ao SUS, e apoio à formação e à pesquisa em saúde. Portanto, os HUs não são favor, máquinas de diplomas ou balcões de procedimentos. São patrimônio do povo e frutos de uma disputa constante por ensino e saúde públicos. Enfraquecê-los significa atingir, de uma só vez, pacientes, estudantes, residentes, trabalhadores, pesquisadores e comunidades inteiras.

É nesses hospitais que o estudante encontra o Brasil real: a doença agravada pela pobreza, pelo racismo, pela desigualdade territorial, pela violência e pelo trabalho precário. A integração entre assistência, ensino e pesquisa como fundamento dos HUs mostra que a articulação entre universidade, serviço e comunidade qualifica a formação e o cuidado. E o bolsonarismo quer destruir essa articulação para implantar uma lógica mercantilista, para atender única e exclusivamente ao mercado, que pensa somente em si mesmo, nos seus lucros e metas.

O Tesouraço bolsonarista tenta esconder essa ameaça atrás de palavras bonitas e romantizadas para a Saúde: “Brasil sem Fila”, “hospitais inteligentes”, inteligência artificial, telessaúde e prontuário eletrônico. São propostas sem planos de execução, já que nenhuma máquina opera um paciente, nenhuma tela substitui uma equipe profissional qualificada, e nenhum prontuário fabrica leitos. Sem financiamento, trabalhadores e infraestrutura, o tal “hospital inteligente” que o bolsonarismo promete vira apenas mais um prédio conectado à internet. E o “Brasil sem Fila” pode acabar como um Brasil com a fila digitalizada: mais moderna na tela, igualmente dolorosa na vida real.

O perigo aumenta quando a solução oferecida é comprar consultas e exames nos horários livres da rede privada. A saúde particular pode responder a emergências, mas não pode substituir o SUS que é gratuito. O Estado não pode comprar continuamente a capacidade técnica e científica, transferir recursos, experiência e tecnologia ao mercado e condenar o SUS à dependência dos grandes conglomerados privados da Saúde. Contratar o aparelho privado ocioso não resolve a falta de estrutura do SUS; em contraponto, investir nos HUs cria atendimento, formação, pesquisa e soberania por gerações. Como promoveremos controle e participação social de um serviço privado?

No meio disso tudo, o bolsonarismo quer retirar as Universidades Federais do Ministério da Educação e transferir sua governança ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, aproximando-as da falácia do financiamento, aproximando pós-graduação e pesquisa ao “impacto produtivo”, à transferência tecnológica e ao “emprego que existe”. Não é uma simples troca de endereço na Esplanada dos Ministérios. É uma mudança de orientação, tática e estratégia orçamentária. As Universidades correm o risco de serem afastadas de sua missão educacional ampla e empurradas para o papel de departamento de treinamento de mão de obra sucateada e explorada.

A universidade deve dialogar com empresas e contribuir para o desenvolvimento nacional, de forma sustentável e responsável com as necessidades do povo, não com a relevância e o preço tabelado que o mercado queira dar. Quem pesquisará doenças negligenciadas, saúde indígena, racismo institucional, mortalidade materna, sofrimento mental ou desigualdades territoriais quando o critério dominante for retorno produtivo imediato? Ciência pública existe para enfrentar aquilo que não oferece lucro, mas tritura a vida do povo! Formar apenas para o “emprego que existe” é condenar o Brasil a obedecer ao presente, quando a missão da universidade é criar o futuro. A quem interessa que o povo brasileiro fique refém da servidão?

O bolsonarismo está mentindo deliberadamente para o povo brasileiro: como vão fortalecer o SUS se ameaçam as condições que permitem fazê-lo funcionar? O mercado da Saúde não quer ninguém saudável, pois ele lucra com a doença!

“Mais Brasil, Menos Brasília” também precisa ser traduzido. Descentralizar responsabilidades sem assegurar financiamento transformará a autonomia local em abandono federal. O Brasil precisa de menos desigualdade, não de menos Estado justamente onde a população mais necessita dele. É a terceirização do caos que o entreguismo bolsonarista gerará no Brasil.

A alternativa democrática e popular segue direção oposta. O programa de Lula propõe fortalecer o SUS público e universal, expandir e interiorizar as Universidades, recuperar seu financiamento e ampliar os HUs articulados à atenção especializada. E isso não é uma esperança vaga. Esperançar não é esperar. É organizar a força social para converter compromisso em orçamento, obra concluída, equipamento funcionando, concurso, bolsa, pesquisa, assistência estudantil e participação popular. Temos aí uma única chance real de proteger os nossos HUs, de combater a mercantilização da Vida!

É preciso democratizar a gestão, valorizar trabalhadores e preceptores, integrar assistência, ensino, pesquisa e extensão e assegurar a voz  de estudantes e usuários. Um hospital público só é excelente quando tecnologia e ciência caminham com equidade, dignidade e controle social. 

É hora de lutar nos corredores dos HUs, nas salas de aula, nos sindicatos, nos conselhos de saúde e nos territórios. Cada Universidade precisa formar comitês em defesa de seu HU; cada curso da saúde deve explicar o que o Tesouraço ameaça; cada HU deve mostrar à sociedade o patrimônio que sustenta. A propaganda mais contundente será a verdade organizada: querem destruir o SUS com planos mágicos, sem pé e nem cabeça!

Queremos um governo que garanta investimento no SUS. Contra a fila digitalizada, queremos a capacidade pública de garantir o direito à Saúde. Contra a Universidade submetida ao mercado, lutaremos por um governo que garanta autonomia para uma ciência crítica! Contra a ciência medida pelo lucro, queremos a pesquisa comprometida com a Vida. Nenhum hospital inteligente sobrevive a uma política insensata, tola e feita por quem não conhece a vida real do povo brasileiro. Nenhum “Brasil sem Fila” nascerá de um SUS que corre o risco de ser enfraquecido e sucateado. 

Com Lula, é preciso avançar, cobrar e fazer valer o direito à saúde. Cobrar sempre por maior autonomia universitária, articulação do ensino-serviço, participação popular e controle social efetivo. Defenda o seu HU! Sem ele você não se forma. Pense nisso.

Brasil, 19 de outubro de 2026.

Entidade que assinam:

  1. DENEM

  2. UNE

  3. CA XII de Maio UFC

  4. CACC UFRJ

  5. CAMED UFS 

  6. CAMed UnB

  7. CAMOPA UFOPA

  8. CAMSA UFSCar

  9. CAMUFRO UNIR

  10. CAPB UNIFESP

  11. CASL UFRGS

  12. CASH UFAL

  13. DAAB UFMG

  14. DAHC UFJF

  15. DAFB FURG

  16. DAFB UFCG

  17. DAFRAM UFAC

  18. DAM UFES

  19. DAM UFS Campus Lagarto

  20. DAMBFS UFPA

  21. DAMED UFBA

  22. DAMUC UFPE

  23. DANC UFPR

  24. DCE UFG

  25. DCE FURG

  26. DCE UnB

  27. DCE UFPA

  28. REBRAUPS