No final de Março áudios do ex-ministro Ribeiro atestaram crimes, propina e tráfico de influência sob anuência do presidente

Em mais um capítulo do que ficou conhecido como o Bolsolão do MEC, a presidência da República impôs sigilo sobre encontros com ‘pastores do MEC’. Bolsonaro ainda ironizou o pedido de informações referentes a reuniões e visitas ao Palácio do Planalto realizadas pelos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos, pivôs do escândalo do balcão de negócios do Ministério da Educação. Questionado na internet sobre o porquê impõe sigilo de 100 anos sobre os casos espinhosos do seu mandado respondeu o presidente: “Em 100 anos saberá”.

“Quem deve, teme e muito né? Os encontros de Bolsonaro com os pastores envolvidos no #BolsolãodoMEC estão sob sigilo. Emails, conversas, cartas e demais documentos.

Não adianta esconder presidente, a gente sabe que você favoreceu e comprou apoio usando dinheiro da educação”, ressaltou a presidenta da UNE, Bruna Brelaz.

O Bolsolão do MEC veio à tona em março deste ano quando foram publicadas na imprensa gravações em que o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, assume que a prioridade de recursos da pasta era definida pelos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos, que não tem cargo no órgão, por ordem de Jair Bolsonaro.

Moura e Gilmar foram apontados como operadores do esquema, negociando com prefeitos a distribuição de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) – autarquia ligada ao MEC – , o que muitas vezes teria ocorrido em troca de propina.

O prefeito de Luis Domingues (MA), Giberto Braga (PSDB) afirmou que Moura pediu 15 mil reais antecipados e 1 kg de ouro para conseguir liberar verbas de obras para construir escolas e creches na cidade.

“Ele disse que tinha que ver a nossa demanda. De R$ 10 milhões ou mais, tinha que dar R$ 15 mil para ele só protocolar no Ministério da Educação. E na hora que o dinheiro já estivesse empenhado, era para dar um tanto X. Para mim, como a minha região era área de mineração, ele pediu um quilo de ouro”, afirmou Braga à reportagem do Estadão.

Segundo o prefeito, o pedido foi feito em um restaurante de Brasília na presença de outros políticos. De acordo com reportagens da Folha de São Paulo e do Estadão, a declaração do gestor maranhaense foi confirmada por outras duas pessoas que estavam no local onde a propina teria sido pedida.

Em outro caso foi descoberto que exemplares de uma edição da bíblia com fotografias de Milton Ribeiro, e dos dois pastores em questão foram distribuídos, em 3 de julho do ano passado, em um evento organizado pelo MEC em Salinópolis (PA). A impressão destaca o “patrocínio” do prefeito de Salinópolis, Carlos Alberto de Sena Filho, o Kaká Sena, do PL, que também teve a imagem estampada entre a contracapa e a folha de rosto. Anfitrião do encontro que reuniu prefeitos e secretários municipais do Estado, ele custeou uma tiragem de mil bíblias, a R$ 70 por cada exemplar.

O jornal O Globo também publicou relatos de prefeitos, confirmados pelo Estadão, que disseram ter recebido pedidos de propina de pastores do gabinete paralelo do MEC, na forma da compra de livros e dinheiro para igrejas.

Depois do escândalo, Milton Ribeiro minimizou as denúncias. Com a repercussão negativa, pediu exoneração do cargo. O presidente da República destacou que Ribeiro estava afastado “temporariamente” para apurar o caso.

CPI do Bolsolão

Desde o afastamento de Ribeiro o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) tem tentado conseguir 27 assinaturas para instaurar uma CPI para investigar a corrupção do governo Jair Bolsonaro (PL) no MEC. Enquanto a CPI não sai, a Comissão de Educação do Senado quer ouvir oito dos envolvidos nas denúncias de corrupção.

O presidente do órgão, senador Marcelo Castro (MDB-PI) disse que “está praticamente acertado” que os convidados pelo requerimento sejam ouvidos em duas reuniões do colegiado, após a Páscoa; e o atual ministro, na semana seguinte. “Se eles não comparecerem, vai ficar quase que uma confissão de culpa e [isso] mais uma vez reforça a necessidade de uma CPI”, afirmou.

Depois da demissão do ministro Milton Ribeiro, surgiram outras duas denúncias relacionadas ao FNDE — de superfaturamento em um pregão de ônibus escolares e de destinação de kits de robótica a escolas que não têm estrutura para utilizá-los.