Em artigo de opinião o diretor de Comunicação da UEE-CE/Livre Bergson Gurjão, José Magno, defende que formar professores para a inclusão não é apenas ensinar libras. Leia na íntegra:

A realidade social que vivemos hoje revela a necessidade de reconhecer diferentes perspectivas e contextos socioculturais, principalmente no ramo da educação. Essa demanda, impulsionada pela luta por reconhecimento e direitos de grupos historicamente marginalizados, convoca a uma quebra de estereótipos. Isso impacta diretamente a formação docente, que não pode se limitar ao domínio de conteúdos, mas precisa preparar professores capazes de atuar diante da diversidade real presente nas salas de aula. Nesse sentido, uma educação que se pretende emancipatória, como defende Paulo Freire (1987), precisa estar fundamentada no diálogo e no respeito às múltiplas realidades presentes na sala de aula.

Por décadas, a universidade pública brasileira foi pensada por e para pessoas ouvintes. Embora o discurso da inclusão tenha ganhado força nos últimos anos, quem ocupa os corredores acadêmicos ou escolares, sabe que existe um abismo entre o que diz a legislação e a realidade vivida pelos estudantes surdos. A inclusão, muitas vezes é tratada como um “anexo” burocrático, e não como um projeto central de soberania educacional e justiça social. Por isso, é urgente repensar a formação docente, para que os futuros professores não sejam lançados na sala de aula sem preparo para garantir uma inclusão real.

A realidade da formação docente no Brasil é sugestiva: um estudante de licenciatura tem uma jornada de quatro/cinco anos de graduação tendo na maioria dos cursos, apenas uma disciplina semestral de Libras. É um modelo que oferece uma “licença para a improvisação”, mas não uma habilitação real para a inclusão. Quando esse futuro professor chega à sala de aula e se depara com um aluno surdo, o despreparo gera a “solidão do aluno surdo” e a falta de uma inclusão real no sistema educacional. Sem a fluência na língua e sem a compreensão da Cultura Surda, o professor acaba transferindo sua responsabilidade pedagógica ao intérprete (quando há), isolando o estudante em uma “pedagogia do mínimo”. Em algumas escolas vemos um cenário ainda mais perverso: quando o intérprete de Libras (que deveria ser a ponte comunicativa) sequer existe e o isolamento do estudante surdo além de pedagógico, passa a ser absoluto. Este descaso estatal condena o aluno ao silenciamento e transforma a sala de aula em um espaço de exclusão geográfica e social. Quando o Estado falha em garantir o básico, a universidade precisa dobrar seu compromisso em formar professores que não apenas dominem a língua, mas que saibam lutar politicamente pela estrutura necessária para que a inclusão saia do papel

A Língua Brasileira de Sinais não é apenas uma ferramenta formal; ela é a propulsora da identidade cultural e da mediação com o mundo. Defender a ampliação do ensino de LIBRAS na universidade é disputar o projeto de educação pública que queremos: uma educação que reconheça a surdez como diferença, e não como deficiência. A luta pela autonomia universitária, que tanto defendemos, deve incluir a autonomia de comunicação para todos os corpos que habitam o campus. A barreira linguística também significa uma barreira de classe, que impede que o conhecimento geográfico, científico e social chegue de forma plena à comunidade surda. Não podemos aceitar que a universidade continue formando professores sem prepará-los para a realidade que eles irão enfrentar. A falta de investimento em Libras nos currículos não é um erro de percurso, é uma falha estrutural que precisa ser combatida pelo movimento estudantil.

GeoLibras: o protagonismo discente como resposta

Diante da indiferença institucional, surge a força da organização dos estudantes. Na Universidade Federal do Ceará (UFC), o GeoLibras (Grupo de Estudos sobre Surdez e Geolinguística), vinculado ao Laboratório de Estudos Geoeducacionais e Espaços Simbólicos (LEGES), nasceu como uma resposta direta a essas lacunas curriculares. O grupo prova que o debate sobre inclusão não pode ficar restrito a uma sala de aula isolada, mas deve transbordar para a pesquisa e para a vivência urbana. O GeoLibras não foca apenas no debate de um domínio técnico da língua, mas em uma “Geografia Surda” na prática. Ao planejar trilhas urbanas acessíveis em Fortaleza e discutir os sinais toponmicos da cidade, o grupo exerce o que Milton Santos (2000) chamava de combate à alienação, propondo novas formas de perceber o espaço através dos olhos e das mãos. A experiência na UFC nos mostra que, quando os estudantes assumem o protagonismo, a universidade começa a transicionar. Conseguimos pautar a importância da identidade, do pertencimento e da democratização do acesso cultural. O GeoLibras é um exemplo de que a educação inclusiva se constrói coletivamente, mas também é um grito de alerta: não podemos permitir que a formação de qualidade dependa apenas de iniciativas voluntárias de estudantes e bolsistas.

O papel do movimento estudantil

A UNE sempre esteve na linha de frente da defesa de uma universidade popular e socialmente referenciada, portanto defender a inclusão efetiva da comunidade surda e o fortalecimento da LIBRAS nas licenciaturas é dar continuidade a essa tradição de luta por direitos. A universidade precisa ser um espaço de “ecologia de saberes”, onde a diversidade não seja apenas tolerada, mas celebrada como potência de conhecimento. Seguiremos mobilizados para que nenhuma barreira – seja ela arquitetônica, atitudinal ou linguística – impeça o povo brasileiro de ocupar o que é seu por direito.

A experiência do GeoLibras denuncia que a responsabilidade pela capacitação inclusiva não pode continuar dependendo apenas de iniciativas voluntárias e pontuais para remediar falhas que são estruturais. A universidade pública deve assumir um papel incisivo, integrando transversalmente o debate sobre a diversidade e a língua de sinais em seus currículos.

Formar professores para a inclusão não é apenas ensinar Libras, mas construir uma postura ética e política que reconheça a diversidade como parte fundamental da educação. Somente através de políticas formativas contínuas e do compromisso institucional com a acessibilidade poderemos garantir que o direito à educação deixe de ser uma promessa de papel e se torne uma prática viva, democrática e verdadeiramente universal.

Conclusão

Pela autonomia, pela inclusão e por uma universidade verdadeiramente de todos!

A educação inclusiva não pode continuar sendo tratada como adaptação secundária ou responsabilidade individual do professor: ela é um compromisso político com o direito universal ao conhecimento. Garantir a presença plena da comunidade surda não só na escola, mas também na universidade é defender o próprio sentido público da educação brasileira. É pela formação docente comprometida, pelo fortalecimento da Libras e pela luta coletiva do movimento estudantil que poderemos romper as barreiras que ainda segregam e silenciam. Não há universidade verdadeiramente democrática enquanto houver exclusão linguística. A inclusão não é favor, não é improviso e não é concessão: é direito. E é através da organização, da luta e da consciência coletiva que construiremos uma universidade acessível, popular e verdadeiramente de todos e todas.

*José Magno é diretor de Comunicação da UEE-CE/Livre Bergson Gurjão e estudante de Licenciatura em Geografia na Universidade Federal do Ceará.