Encontro em São Paulo reunirá entidades de diferentes regiões para debater permanência estudantil, assistência e combate à evasão universitária
Alta das mensalidades, atraso de bolsas, insegurança alimentar e dificuldades de acesso à moradia e ao transporte estão entre os principais desafios que DCEs, UEEs e Executivas de curso de diferentes regiões do país levarão ao 72º Conselho Nacional de Entidades Gerais (Coneg) da UNE, que acontece nos dias 5 e 6 de junho, em São Paulo.
Meses após uma greve nacional que levou à paralisação de mais de 50 universidades em todo o país, e em meio à crise nas estaduais paulistas, o encontro vai reunir entidades estudantis para construir uma agenda nacional de mobilização em defesa da educação e da permanência estudantil. Sob o tema “Educação e soberania é o que nos une”, a programação terá como prioridade a troca de experiências entre as entidades e o debate sobre os desafios enfrentados pelos estudantes nas universidades públicas e privadas.
Na Bahia, o coordenador do DCE da UniJorge, Robson Alves, afirma que uma das principais lutas da entidade atualmente é contra o aumento abusivo das mensalidades na instituição.
“No último período tivemos um aumento de quase 24%. Temos que tirar de onde não temos para pagar um reajuste abusivo, não sobra dinheiro para merendar e se alimentar direito”.

Robson Alves, coordenador do DCE da UniJorge
Universidades diferentes, problemas parecidos
Embora com realidades distintas, os relatos das entidades convergem em problemas semelhantes. No Amazonas, a presidenta da União Estadual dos Estudantes (UEE-AM), Thaly Duarte, afirma que o aumento das mensalidades nas universidades particulares, sem reajuste proporcional das bolsas, tem aprofundado as dificuldades dos estudantes.
Ela também aponta o aumento dos preços nas cantinas e a concentração do ensino privado na mão de dois grupos educacionais como entraves para a permanência universitária. Já no ensino público estadual, destaca problemas ligados à assistência estudantil e à precarização das universidades.
“Atraso de bolsas de auxílio socioeconômico, RU com comida inadequada ao consumo, falta de contratação de professores, o que faz os estudantes se atrasar cada vez mais os conteúdos”, elencou.
Segundo Thaly, a realidade amazonense é agravada pelas particularidades geográficas e sociais do estado, sobretudo para estudantes do interior e de comunidades ribeirinhas, que precisam lidar com altos custos de deslocamento, moradia e alimentação para conseguir permanecer na universidade.
“Inexistem políticas específicas e permanentes que garantam dignidade para estudantes interioranos e ribeirinhos, aprofundando desigualdades históricas e excluindo milhares das salas de aula”.

Thaly Duarte, presidenta da União Estadual dos Estudantes (UEE-AM)
Em Pernambuco, a presidenta da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP), Geovana Vitória, afirma que a luta pela permanência estudantil também tem ocupado o centro das mobilizações nas universidades do estado.
“Transporte, alimentação, moradia e auxílios, isso é dignidade estudantil em forma de permanência que queremos construir tornando a Política Estadual de Assistência Estudantil em Lei”.
Geovana também cita a luta contra taxas abusivas e pela atualização da lei de estágio.
“Nas particulares lutamos pelo fim das taxas e mensalidades abusivas, por assistência estudantil e sobretudo, por uma lei de estágio atualizada, que não entregue a mão de obra dos estudantes enquanto um serviço desvalorizado e predatório para empresas”.

Geovana Vitória, presidenta da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP),
Da alimentação à segurança: permanência em disputa
Para a UNE a permanência também passa pelas condições de circulação e segurança nos campi. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o coordenador do DCE da instituição, Alison Kauan, relata que o Restaurante Universitário, antes aberto aos finais de semana para atender estudantes residentes, passou a ofertar marmitas de baixa qualidade.
Além disso, ele afirma que a insegurança dentro da universidade tem impactado diretamente a rotina dos estudantes, especialmente no período noturno.
“Nossa universidade à noite fica extremamente escura, já houve diversos episódios de perseguição, sequestro, assalto. Fizemos pressão na reitoria para mudar alguns horários do Departamento de Segurança Patrimonial (DSP) para realizar rondas nos horários de pico na UFRN”.
Alison também afirma que os processos de estudantes que solicitaram auxílios estudantis seguem parados desde a greve dos técnicos administrativos, iniciada em abril.
“Diversos calouros que necessitam desses auxílios estão passando por dificuldades”.

Alison Kauan, coordenador do DCE da UFRN
A defesa da ampliação das políticas de assistência estudantil também passa pelo fortalecimento dos Restaurantes Universitários. Para a coordenadora do DCE da UFRGS Niara Dy Luz, é necessário avançar na regulamentação do Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) e garantir fontes permanentes de financiamento para os RUs.
Segundo ela, a alimentação estudantil deve ser tratada como uma política estratégica, articulada com áreas como educação, saúde e desenvolvimento agrário. “Uma das propostas que temos levado é ter uma rubrica no Plano Nacional de Educação (PNE) específica para o financiamento dos RUs, com participação interministerial”, afirma.

Niara Dy Luz, coordenadora do DCE da UFRGS
Em comum, as entidades defendem que os desafios locais da permanência estudantil precisam se transformar em uma pauta nacional do movimento estudantil.
“O CONEG, sendo o maior encontro de entidades gerais da UNE e o maior espaço de deliberação dessas entidades, será um importante espaço para refinar ideias que possam reforçar a luta dos estudantes de todas as regiões por um RU de qualidade, garantir uma assistência estudantil ampla, bem como pensar formas de implementar restaurantes populares perto das universidades privadas”, destaca Thaly Duarte.