Leia o artigo do tesoureiro da UEP, Ricardo da Silva, sobre a necessidade ampliar espaços para prática de esporte e lazer

A cultura corporal, aquela que aparece no esporte, na dança, nas lutas, nos jogos, nas brincadeiras de rua e em todas as formas de expressar o mundo com o corpo, deveria ser tratada como um direito básico, tão fundamental quanto educação e saúde. Movimentar-se, treinar, dançar fazem parte da própria experiência humana. O corpo é nossa primeira linguagem, nosso primeiro território. Mas, no Brasil, esse direito está longe de ser realidade para a maioria dos estudantes, especialmente os que vivem nas periferias e enfrentam diariamente a falta de estrutura e de oportunidades.

Vivemos em um país onde até o direito de se movimentar é atravessado pela desigualdade. Se para alguns jovens é comum frequentar academia, clube, piscina, quadra poliesportiva, aula de dança ou artes marciais, para a maioria isso não passa de desejo distante. A lógica é simples e cruel: quem tem dinheiro se exercita; quem não tem, improvisa, ou então não se exercita. É como se o movimento tivesse preço, como se só merecesse cuidar do corpo quem pode pagar. E quem não pode, que “se vire”.

Dentro dessa lógica capitalista, o corpo é transformado em mercadoria. Ele precisa ser “bonito”, “saudável”, “eficiente”, “vendável”, sempre dentro de padrões quase impossíveis. A indústria fitness lucra vendendo não só produtos, suplementos e equipamentos, mas
também culpa: dizem que você não treina porque “não quer”, porque “falta disciplina”, quando na verdade falta tempo, falta segurança, falta estrutura, faltam condições materiais.

A maioria da juventude não está sedentária por falta de vontade; está por falta de direitos. Essa realidade pesa ainda mais sobre os estudantes das periferias, que muitas vezes conciliam escola, trabalho, longos trajetos de ônibus, responsabilidades familiares,
alimentação irregular e cansaço acumulado. É muito fácil falar que “atividade física melhora a vida”, que “exercício faz bem”, que “é só se organizar”. Difícil é colocar isso em prática quando sua escola não tem quadra, quando a quadra até existe mas está abandonada, quando seu bairro não tem uma praça iluminada, quando o único espaço de lazer foi tomado por estacionamento, ou quando a sua rotina não deixa sequer espaço para o descanso.

A desigualdade no acesso à cultura corporal é um retrato fiel do próprio Brasil: oportunidades concentradas para poucos, enquanto a maioria luta para ter o mínimo. E o mais grave é que essa exclusão quase nunca é vista como problema político. É naturalizada, tratada como se fosse normal viver sem espaço para o corpo existir plenamente. Como se fosse normal que crianças e adolescentes cresçam sem brincar, sem correr, sem experimentar diferentes esportes, sem descobrir suas habilidades, sem ocupar o território com movimento.

Apesar disso, a escola pública segue sendo um dos principais espaços de resistência. É ali, mesmo com bola murcha, rede rasgada ou sem material nenhum, que muitos estudantes têm seu primeiro contato com esportes, danças, jogos coletivos e práticas que fortalecem a convivência. É ali que o corpo pode ser expressão, criatividade e liberdade, e não apenas mercadoria a ser moldada. Professores e professoras de Educação Física, muitas vezes com recursos mínimos, constroem ambientes de acolhimento, incentivo e descoberta. Para muitos jovens, é a única oportunidade real de viver a cultura corporal.

Por isso, é urgente inverter essa lógica. Cultura corporal não pode ser privilégio de quem detém capital ou de quem mora perto de equipamentos esportivos. Cultura corporal precisa ser direito garantido, política pública forte, prioridade do Estado e agenda permanente da sociedade. Isso significa enfrentar a elitização do esporte, ampliar espaços comunitários, revitalizar quadras e praças, garantir iluminação, investir em centros esportivos públicos, fortalecer projetos de lazer nas periferias e, principalmente, valorizar a Educação Física nas escolas como área de conhecimento fundamental, e não como enfeite na grade curricular.
A juventude não pode continuar sendo privada do movimento. Corpo que não se movimenta, se cala. Corpo que não encontra espaço, encolhe. E sociedade que aceita isso se acostuma a silenciar gerações inteiras.

Democratizar a cultura corporal é também democratizar a vida. É permitir que cada estudante experimente seu corpo de forma plena, livre, criativa e humana. É garantir que o direito ao movimento não dependa do tamanho da sua renda ou do CEP onde você nasceu. É afirmar que o corpo importa, e que só uma sociedade que reconhece isso pode ser, de fato, justa.

* Ricardo Gabriel Rocha da Silva é tesoureiro da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP).