Ciclo de Debates da 12ª Bienal da UNE traz convidadas ativistas que propõe a cultura como ponto central na construção de uma nova sociedade

O debate inaugural da 12ª Bienal da UNE “A luta contra a censura e os impactos da pandemia na cultura”, foi transmitido nesta terça-feira (4/05) via YouTube da entidade.

Na discussão a atriz, cineasta e ex-presidente do Cuca da UNE, Ana Petta, lembrou dos 20 anos do Circuito de Cultura e Arte da UNE que ela ajudou a fundar. “Quando você fazer parte do inicio de um movimento você não tem noção do quanto pode durar. É muito bom poder ver o trabalho de vocês e que essa garra, essa força de produzir cultura continua viva, apesar de toda tragédia política que vivemos no Brasil”, ressaltou.

Em uma fala marcante sobre como acompanhou a escalada e a derrocada dos investimentos no setor nos últimos anos Petta comparou “se na ditadura militar você tinha a caneta do censor, agora você tem a caneta de quem proíbe os investimentos”.

E pintou um um cenário desastroso para a cultura já antes da pandemia. Ela citou a desarticulação de todas as estatais que investiam em cultura e que eram fundamentais para a área como o Banco do Brasil, Caixa, Correios, Petrobrás e logo depois o desmonte de todas as estruturas que tinham editais, políticas e fundos, bem como fatos concretos como projetos já aprovados cancelados, editais.

Independência e acervo nacional comprometidos

No campo do audiovisual, Petta foi enfática no domínio dos serviços como Netflix, Amazon Prime e outros canais do tipo. “ Hoje o que acontece é que os serviços de streaming que decidem o que é produzido e eles pagam e ficam com os direitos sobre o que eles produzem, então a produção independente perde os direitos patrimoniais sobre as obras”.

Para a professora de Audiovisual da Unila, Fran Rebelatto a cultura e arte são centrais na tomada de consciência das pessoas, e de todas as formas de opressão para pode ser movimentar e buscar uma outra sociedade. “Não é a toa que o governo genocida de Bolsonaro quer destruir o ministério da cultura e a educação pública, nos colocar como principais inimigos nesse momento”, ressalta.

E afirma: “a arte e memória se relacionarem com o projeto de país de construção nacional é fundamental para entendermos onde estamos hoje que é a destruição completa”. E citou a fragilidade histórica no processo de construção de políticas públicas duradouras no país, a recente e tardia institucionalização das políticas culturais.

Rebelatto exemplificou que está acontecendo com a cinemateca brasileira nesse momento totalmente abandonada. “É um crime, contra a memória, contra a história da produção de imagem do país, com um acervo gigante que conta a história desses pais em imagens a mercê do descaso de um governo que tem uma política deliberada contra a cultura e a memória”.

Saída será pela reinvenção

Para a representante de Cultura do MST, Guê Oliveira, mesmo vivendo uma sociedade em que a lógica mercadológica é potente no processo da cultura a desnaturalização da barbárie. “Ela tem no seu amago do entendimento do mundo essa essência, quando a compreendemos de uma forma emancipadora”.

Rebelatto concordou ressaltando que arte e a cultura tem que se transformar em movimento, em capacidade de conseguirmos mostrar essas contradições e lutar por outro projeto societário.

Para a representante do MST o caminho, a luz no final do túnel será pela reinvenção. “Teremos que reinventar as nossas relações, nós teremos que nos reinventar enquanto artistas, enquanto produtores de cultura, enquanto seres humanos, novas possibilidades, novos caminhos”.

E afirma que saída não será individual, mas sim coletiva. “Terá que ser uma cultura que viabilize sociabilidades mais coletivas, Vimos que o individualismo não foi saída, cade o empreendedorismo? Foi para o beleléu”.