Encontro marcou os 20 anos do Circuito Universitário de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes e reafirmou posição de resistência cultural
No encerramento da 12ª Bienal da UNE, dia 23 de Maio, o Seminário do Cuca da UNE se reuniu para avaliar a mais longeva experiência cultural da UNE, 20 anos de organização do Circuito. Membros e ex-membros do Cuca convidados falaram sobre os avanços e sobre a vontade de mudar o país realizando e movimentando atividades culturais em universidades pelo país. Ao final foi aprovado o manifesto do povo que resiste, documento que reafirma os princípios da iniciativa. Leia abaixo:
MANIFESTO DO POVO QUE RESISTE
São Paulo. Ceará. Bahia. Amapá. Amazonas. Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro. Rio Grande do Sul. Maranhão. Pará. Minas Gerais. Santa Catarina. Paraná. Pernambuco. Goiás. Piauí. Distrito Federal. Mato Grosso. São Paulo de novo. Brasil.
Foi deste ciclo-processo que partimos, lá nos primórdios do que termina de tomar forma hoje. Parece que faz tanto tempo, e tivemos de amadurecer tanto, mas os sonhos nossos já foram outros. A receita de bolo já existia. Chão de universidade. Passagem em sala. Vozes em alto e bom som e a venda dos sonhos. A pandemia nos tomou tudo. A reinvenção foi a palavra de ordem. Cansaço também. Isso tudo vale mesmo a pena? Essa é a sensação de ser a linha de frente em tempos assombrosos? É normal sentir medo? E a mente como fica?
Noutrora não nós, outros calçaram esses sapatos, e mesmo tendo lido muito, ouvido mil relatos, conhecido tantas faces sobreviventes – ou não – de outros tempos sombrios, nada se compara à sentir na pele o céu caindo. As incertezas tomaram de assalto nossos planos.
São 20 anos de uma experiência construída por mãos do Brasil inteiro. Jovens, estudantes, artistas, ligados pela vontade revolucionária de fazer parte de algo maior, que os transcenda, que fique; mesmo que eles mesmos não. Nos casamentos, as bodas de porcelana representam esse ciclo, mas o CUCA não é um casamento, o CUCA é um circuito. Curto-circuito. Um choque de adrenalina nas cucas inquietas que buscam o SER brasileiro nas manifestações artísticas, agora mais transversais que nunca. E na cultura que forjamos no dia-a-dia.
Tudo foi posto em perspectiva, e não poderia ser diferente. As receitas não funcionam, os métodos já não se aplicam. As ferramentas mudaram? Onde está nossa galera? Estão bem? Aldir Blanc, descaso, falta comida, falta oxigênio, Paulo Gustavo, olha a vacina! Cadê?! 11 chances rejeitadas, tente novamente mais tarde. Meio milhão de amores enterrados, sem despedida. Entre mortos e feridos, não deixe a peteca cair. Quantos somos? É possível? Existe objetivo? Existe.
No caminho sinuoso que nos trouxe até aqui aprendemos algumas coisas, acumulamos alguns bons amigos, reconhecemos a rede e passamos a visualizar em 3D nossa teia, composta e transpassada num país tão rico, tão forte, tão potente, que não haveria outra alternativa se não nos organizarmos ainda mais. Voltar ao início. Como faz mesmo? Ligação. Um a um. Como você tá? E a família? Tem comido? Os estudos, tá conseguindo? Tudo bem, não tem problema, se cuida, qualquer coisa estamos aqui, pode chamar, a gente se ajuda. E assim foi, um a um, e crescemos. Resgate seus laços.
Mas quem somos? Após tantos anos, nossa história segue sobrevivendo de boca em boca, passada de cuqueiro para cuqueiro. Continuamos, quem somos afinal?! Somos teatro, somos cinema, somos fotografia, somos professores e cientistas, da dança e da rima, gestão e compasso, combustão no vigésimo ato, uma mente coletiva, que em meio à uma pandemia conversa por telas e grita em quatro paredes, e agora?! Qual o mérito do tempo? Somos a experiência mais longeva ligada à arte e cultura e de que vale? A vontade de falar sobre esse momento nos rasga. Espera. Talvez seja isso.
O CUCA é uma ideia que segue atravessando o tempo. Bonitas mesmo são as coisas que ficam, e o que estamos construindo hoje. Talvez o acaso tenha nos juntado, mas não à toa estamos aqui. A ruptura nos forçou a encarar novos meios, na hora você não entende a velocidade de uma ideia, de criar espaços de resistência. A própria capacidade inventiva.
Se estamos conseguindo fazer, é porque a resistência existe. Viva.
Circuito Universitário de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes, maio de 2021.
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