Conheça os líderes estudantis que fizeram história na entidade; Encontro de Estudantes negros e negras começa nesta sexta (19)

Ser jovem e negro no Brasil pode ser uma luta diária. Num país em que a taxa de homicídios de negros é mais que o dobro da de brancos, segundo o Atlas da Violência, sobreviver torna-se tarefa primordial. Contudo, o enfrentamento ao preconceito e a violência ganha aliados importantes, como é o caso da União Nacional dos Estudantes (UNE) que em seus 81 anos de história se manteve ao lado da juventude negra contra as injustiças, os retrocessos e por mais direitos.

Foi assim ainda na década de 60, quando a jovem Helenira Rezende ocupou o cargo vice-presidenta da entidade. Mulher, negra e pobre, ela acabou assassinada por militares em 1972, e ainda hoje é um dos nomes mais lembrados entre as centenas de estudantes que foram perseguidos e violentados pelo regime no período de maior radicalização da ditadura.

A jovem vice-presidenta Helenira Rezende perseguida e assassinada pela ditadura militar

Em 1995, foi a vez do atualmente deputado federal Orlando Silva (PCdoB) presidir a entidade com a honra de ser o primeiro negro a fazê-lo.

’’Foi algo de importante simbolismo para a luta contra o racismo estrutural que existe no Brasil, até porque, na época, a universidade era ainda mais fechada aos negros e pobres, era mais fechada à maioria do povo’’, conta.

Em seu mandato, os jovens lutavam contra as demissões em massa de professores, as políticas entreguistas de Fernando Henrique Cardoso, e, claro, reivindicavam a popularização do acesso à educação superior.

‘’Hoje, após décadas de lutas e políticas elaboradas por governos progressistas com forte atuação da UNE, o perfil da universidade mudou e tem maior presença popular’’, fala.

Ex-presidente da UNE e atual deputado federal Orlando Silva

UNIVERSIDADE PINTADA DE PRETO

Falando em popularização, a segunda vice-presidenta negra da UNE entrou na universidade graças ao Prouni. Moara Correa deixou sua marca na entidade na gestão de 2015-2017 e chegou a ocupar o cargo de presidenta da entidade durante licença da paulista Carina Vitral. Esta foi a primeira vez em que uma mulher negra assumiu o mais alto cargo da UNE.

À época, a então vice-presidenta falou ao site da UNE  sobre o processo histórico que a trouxe para uma das  representações máximas dos estudantes brasileiros.

“Se estou aqui é porque a juventude negra no movimento estudantil falou ‘eu quero me ver representada na UNE, eu quero construir essa entidade como um dia eu quis, mas eu quero ver a minha cara nela’. Não só a juventude negra, mas como as mulheres”.

Moara Correa foi vice-presidenta da UNE

PELA JUVENTUDE NEGRA, COMBATENDO O RACISMO

Além da luta pela educação inerente à entidade, a UNE tem em sua estrutura uma diretoria de combate ao racismo. A pasta trata de perto episódios racistas no país e nas universidades, dando voz e empoderando os jovens que dela participam.

Rodger Richer, estudante de mestrado em Ciência Política da Unicamp, foi diretor de combate ao racismo na gestão 2015-2017 e levou para a universidade a experiência adquirida nos anos frente à diretoria.

‘’O meu projeto chama-se  A Negritude e a UNE: a presença negra e sua influência no movimento estudantil e nele busco explorar como e por qual motivo a pauta do combate ao racismo aparece na une, revelando o papel exercido pelas organizações negras e do movimento estudantil para trazer esta bandeira para a entidade’’, explica.

Outra importante responsabilidade da diretoria é construir o Encontro de Estudantes Negros e Negras (Enune). O evento foi realizado pela primeira vez em 2007 com a finalidade de aprofundar as discussões acerca das políticas de ações afirmativas para o ingresso e permanência dos estudantes negros e negras na universidade. Em 2017, a 5ª edição do Encontro entrou para a história como uma das maiores já realizadas. Foram mais de 2000 estudantes reunidos na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador.

Rodger inaugura a 5ª edição do Enune, em Salvador, no ano de 2017

Rodger construiu a quinta edição do evento e conta como foi receber e compartilhar ideias com tantos estudantes vindo de todo o país.

‘’Foi um momento muito mágico. Apesar do cenário nacional bastante conturbado naquele momento, realizamos o maior Enune da história. Foi inédito mobilizarmos tanta gente para debater uma sociedade e uma universidade sem racismo’’, avalia.

Nesta gestão a construção do Enune fica por conta da estudante de Direito da UFF Dara Sant’anna. O 6º Enune acontece entre os dias 19 e 21 de abril, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Rio de Janeiro.