Mostra Científica selecionou trabalhos de diferentes regiões do país que trazem diversidade de sotaques, sabores e paisagens.

Chegar ao 60º Congresso da União Nacional dos Estudantes já é, para muitos, uma conquista. Para diversos estudantes que participaram da Mostra Científica, o trajeto até esse espaço de exposição e troca de saberes começou muito antes do credenciamento. Começou nas salas de aula apertadas, nas bibliotecas comunitárias, nos barcos que cruzam rios da Amazônia, nos ônibus que atravessam o país em viagens de mais de dois dias. Começou nos quintais, nas aldeias, nos assentamentos e nas comunidades onde a ciência é feita com criatividade, urgência e esperança.

Entre os destaques da mostra, esteve o trabalho de Phelipe Santos Amaro, da Universidade Federal do Norte do Tocantins, que apresentou uma pesquisa sobre quintais produtivos e modos de vida ribeirinhos. Para ele, participar do Congresso representa uma conexão com outras realidades e uma forma de retribuir o apoio institucional que recebe. “A gente se conecta e vê a singularidade de tantos trabalhos que estão sendo feitos pelo Brasil todo. Eu tenho o apoio da minha faculdade, do CNPq, e sinto que o mínimo que posso fazer é devolver isso construindo ciência para o povo”, refletiu.

Do outro extremo do país, Cecília Maira Lima de Freitas, da Universidade do Amapá, levou um estudo sobre as memórias das lutas das mulheres do campo no estado. O caminho até o Conune exigiu atravessar o rio de barco por 24 horas até Belém e, de lá, seguir viagem. “As pessoas não têm noção do esforço que é sair do Norte do Amapá e trazer o trabalho pra cá. Mas estar aqui mostra que a nossa luta merece ser vista”, afirmou.

Já do Piauí, Tadeu Passos de Lima percorreu mais de 32 horas de estrada até o Congresso, com uma pesquisa que defende a educação ambiental como ferramenta de transformação social, com foco na preservação da fauna silvestre. “Não esperava que meu trabalho fosse escolhido. Mas isso só mostra como é importante cuidar e respeitar nossa fauna, e como a educação ambiental pode mudar tudo”, contou.

Para a UNE, a Mostra Científica quer popularizar a produção do conhecimento produzida nas universidades, que não pode estar restrita aos grandes centros ou aos laboratórios fechados, mas precisa dialogar com a diversidade cultural e ambiental do país. O entendimento da entidade é de que a ciência feita por estudantes brasileiros carrega sotaques, sabores e paisagens. É feita com os pés no chão e os olhos voltados para as necessidades do povo. E, acima de tudo, é essencial para transformar o Brasil. Enquanto houver um estudante disposto a carregar nas costas seu trabalho, sua cultura, sua história e sua comunidade — mesmo que precise atravessar o país para isso —, a ciência brasileira segue viva.

*Por Gregory França Naressi da Cobertura Colaborativa com edição de Cristiane Tada.